A voz do povo é a voz de Deus! Chegou o momento de cumprir a promessa e mergulhar, mais uma vez, nas entranhas da área urbana que mais se transforma na Princesinha do Sertão: bem-vindos à parte III do quadro “ruas e bairros de Feira de Santana”.
Quem passa hoje pelas “fronteiras” da Avenida Artêmia Pires, nas extremidades que ditam a extensão territorial do bairro do SIM, não imagina que ali já foi chão de terra batida e refúgio de tranquilidade rural.
Para revelar o que há por trás das três letrinhas que batizam esse vetor de expansão, convidamos novamente o historiador Carl Lima para um último mergulho nas histórias, mitos e verdades sobre os bairros de Feira de Santana. Confira abaixo:
Bairro SIM: de onde vem essa sigla tão famosa?
Engana-se quem pensa que o nome “SIM” nasceu de algum marketing imobiliário ou derivado do filme “Dia do Sim” (2021), da Netflix. A denominação, na verdade, guarda uma marcante trajetória de acolhimento social em Feira de Santana.
A história é mais profunda do que parece. Segundo Carl Lima, a sigla remete diretamente ao Serviço de Integração de Migrantes (SIM), projeto social e filantrópico criado na década de 1970, época em que Feira passava pelo seu processo de urbanização. A entidade recebia trabalhadores de diversas regiões em busca de espaço na cidade.
“Ele (o bairro SIM) surge na década de 1970, quando Feira queria deixar de ser meramente comercial para se tornar industrial. A própria nomenclatura vem do Serviço de Integração de Migrantes, projeto pensado e desenvolvido pelo pastor e professor Josué Melo. A ideia era dar capacitação, moradia temporária e suporte educacional para os migrantes (na época apelidados de ‘nortistas’) que chegavam sem recursos. O projeto qualificava homens para a construção civil e mulheres para a costura”, explica Carl.
A perspectiva do passado rural, segundo Carl Lima:
Antes dos grandes condomínios e faculdades se instalassem na região, o SIM era praticamente uma extensão da zona rural dominada por chácaras, sítios e fazendas familiares. Era onde as famílias feirenses buscavam sossego nos fins de semana.
“Inicialmente, o SIM era restrito à região onde hoje está a Avenida Centenário. Era uma área rural além do Anel de Contorno. Junto com o projeto social, a região virou um subúrbio idílico para famílias abastadas que queriam construir seus sobrados e mansões longe dos problemas do Centro. Paralela à Centenário, a atual Avenida Artêmia Pires era a antiga Estrada do São Roque, que ligava Feira à Jaíba. Pelo Código de Urbanismo da época, tudo ali era considerado zona rural”, complementa o pesquisador.

Foto: Jorge Magalhães
A perspectiva do boom imobiliário, segundo Carl Lima:
A “grande reviravolta do SIM”, no entanto, começou no final dos anos 1990 e se intensificou nos anos 2000, transformando a região na atual “Pituba do Sertão”. A combinação de terrenos planos com a chegada de campus universitários, faculdades e moradias iniciou as transformações na região.
“Com o passar dos anos, a cidade foi se expandindo. Do ponto de vista das propagandas imobiliárias, o bairro acabou sendo alargado para além da sua área inicial. A cada novo lançamento que surge na cidade, tende-se a chamar de SIM uma região que já está a quilômetros de distância do centro irradiador do projeto e do bairro original”, ressalta.
Ainda segundo o especialista, isso gerou uma transição socioeconômica profunda: o lugar que nasceu acolhendo migrantes vulneráveis se converteu no metro quadrado mais valorizado da cidade, atraindo um polo residencial fortíssimo.

Foto: Reprodução
Das ações de acolhimento dos anos 70 aos modernos arranha-céus, o SIM prova que Feira de Santana não para de se reinventar sem perder os registros da sua caminhada. A trajetória da localidade reforça a vocação da Princesinha do Sertão como terra de braços abertos, encontros culturais e contínuo desenvolvimento urbano.
O CONTORNO agradece ao historiador Carl Lima por enriquecer mais um capítulo do nosso especial. E você, leitor, qual história de bairro quer ver contada aqui na próxima edição?
Foto da capa: Reprodução
Por Cristiano Sales,
jornalista e escritor.

















