O Outubro Rosa chegou na Princesinha do Sertão pedindo atenção. Segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deve registrar 78 mil novos casos de câncer de mama feminino por ano, estabelecido no triênio 2026–2028. No estado da Bahia, a incidência deve chegar a 4,4 mil casos por ano.
Ocupando a 4ª posição no ranking de maior incidência entre os estados, atrás apenas do trio do Sudeste como São Paulo (20,8 mil), Rio (10,3 mil) e Minas (8,4 mil), os holofotes estão voltados para a Bahia quando o foco é prevenção, tratamento e qualidade de vida. Inspirando o cuidado, a qualidade de vida e a escuta sensível de quem venceu o câncer de mama e que hoje traduz sua experiência em cuidado, a Dra. Fabiane Araújo é um dos exemplos de resiliência, estudo e cuidado individualizado em Feira de Santana.
A médica falou com exclusividade ao Portal CONTORNO sobre experiências pessoais, a importância de ampliar o debate sobre diferentes etapas do tratamento oncológico da mama, e as expectativas para o futuro do tratamento na Princesa do Sertão. Acompanhe abaixo a entrevista exclusiva com a ginecologista:

Foto: Arquivo Pessoal
CONTORNO: Como foi a sua trajetória na medicina e qual foi o momento em que a sua própria vivência com o câncer de mama transformou o seu olhar como ginecologista?
"A ginecologia sempre me permitiu acompanhar a mulher em diferentes momentos da vida. Ao longo da minha trajetória, fui ampliando meu olhar para além das doenças ginecológicas, aprofundando meus estudos em menopausa, saúde hormonal, sexualidade, ginecologia funcional e regenerativa e longevidade feminina. Mas houve um momento que transformou profundamente a maneira como eu compreendia o cuidado: quando deixei de ser apenas médica e passei a ser também paciente. Eu tive câncer de mama. Passei pelo tratamento oncológico e, depois dele, precisei enfrentar uma menopausa precoce e intensa, com sintomas que comprometeram significativamente minha qualidade de vida", relata.
Mesmo sendo ginecologista, a especialista revela que há uma distância enorme entre conhecer uma condição cientificamente e experimentá-la no próprio corpo, vivendo na pele fogachos, insônia, fadiga, alterações da saúde íntima e as mudanças metabólicas. No entanto, a experiência fez com que a médica compreendesse as dimensões do sofrimento feminino que nenhum livro, isoladamente, lhe conseguiu ensinar.
"Foi nesse período que comecei a buscar respostas mais profundas. Ampliei meus estudos e passei a olhar com especial atenção para as mulheres que sobreviveram ao câncer de mama, mas continuavam enfrentando consequências físicas, hormonais, sexuais e emocionais do tratamento. Minha experiência pessoal não substitui a ciência. Pelo contrário: ela me trouxe perguntas que me fizeram estudar ainda mais. Hoje, acredito que essa vivência acrescentou algo essencial à minha prática médica: uma escuta mais sensível, associada à responsabilidade de oferecer um cuidado cada vez mais individualizado e fundamentado em evidências. Eu vivi. Eu estudei. Hoje eu cuido", destaca.


Foto: Arquivo Pessoal
CONTORNO: O tratamento contra o câncer traz grandes impactos na vida íntima e hormonal da mulher. Como a ginecologia moderna ajuda a resgatar o bem-estar e a qualidade de vida de forma segura nessa fase?
"O tratamento do câncer de mama pode provocar mudanças importantes na vida da mulher, especialmente quando leva à menopausa precoce ou intensifica sintomas relacionados à deficiência hormonal. Estamos falando de alterações do sono, ondas de calor, fadiga, mudanças na composição corporal, perda de massa muscular e óssea, além de ressecamento vaginal, dor nas relações sexuais, sintomas urinários e alterações do desejo. Durante muito tempo, algumas dessas mulheres ouviram que precisariam simplesmente aprender a conviver com essas consequências, especialmente pelas restrições ao uso de determinadas terapias hormonais. Mas a medicina evoluiu, e hoje temos diferentes possibilidades de cuidado", desmitifica.
Segundo a doutora, é possível utilizar tratamentos não hormonais para sintomas da menopausa, estratégias de reabilitação do assoalho pélvico, hidratantes e lubrificantes vaginais, acompanhamento da saúde óssea e metabólica, exercício físico orientado e abordagens específicas para sono, sexualidade e saúde emocional. Em situações selecionadas, Fabiane explica que tratamentos hormonais vaginais de baixa dose também podem ser considerados, após avaliação individualizada e decisão compartilhada com a equipe oncológica.
"Isso não significa que a terapia hormonal sistêmica seja segura ou indicada para todas as sobreviventes. Na ginecologia funcional e regenerativa, também acompanhamos o desenvolvimento de tecnologias como laser e radiofrequência que têm nos favorecido nas abordagens de saúde íntima. O mais importante é compreender que não existe uma única receita. Precisamos conhecer o tipo de câncer, os tratamentos realizados, os medicamentos em uso, os riscos individuais e, principalmente, aquilo que está comprometendo a vida daquela mulher", revela.

Foto: Arquivo Pessoal
CONTORNO: Muito se fala sobre o diagnóstico no Outubro Rosa, mas pouco sobre o depois. Para você, qual a importância de ampliar esse debate e garantir que o cuidado continue depois das sessões de tratamento?
"O Outubro Rosa desempenha um papel fundamental ao incentivar a conscientização, o diagnóstico oportuno e o acesso ao tratamento do câncer de mama. Mas acredito que precisamos ampliar essa conversa. Porque existe uma mulher depois do câncer. Uma mulher que pode ter concluído a quimioterapia, a cirurgia ou a radioterapia, mas que ainda convive com fadiga, insônia, alterações hormonais, dificuldades sexuais, mudanças no corpo, medo da recorrência e desafios para recuperar sua qualidade de vida. O acompanhamento oncológico continua sendo indispensável, mas ele precisa caminhar ao lado de uma assistência integral, capaz de cuidar da saúde cardiovascular, óssea, metabólica, íntima, sexual e emocional. Costumo dizer que, durante o tratamento, o câncer precisou ocupar o centro das atenções. Depois dele, chega o momento de colocar a mulher novamente no centro do cuidado", afirma.

Foto: Arquivo Pessoal
CONTORNO: Como você enxerga a cidade de Feira de Santana em meio ao Outubro Rosa? Acredita que estamos rumo a uma maior conscientização ou ainda falta muito entendimento acerca do assunto?
"Vejo com satisfação que o Outubro Rosa conquistou um espaço importante na comunicação, nas instituições de saúde e nas conversas da população de Feira de Santana. Hoje existe maior visibilidade para a importância do cuidado com as mamas, da avaliação médica e do diagnóstico oportuno. Isso representa um avanço cultural significativo. Entretanto, acredito que ainda temos um caminho importante pela frente. Conscientização não pode se limitar ao uso da cor rosa durante o mês de outubro. Ela precisa se traduzir em informação de qualidade, acesso aos serviços de saúde, investigação adequada de alterações mamárias, diagnóstico em tempo oportuno e continuidade do acompanhamento. Também precisamos combater a ideia de que toda mulher deve seguir exatamente o mesmo percurso de rastreamento. A avaliação deve considerar idade, histórico familiar, risco individual e recomendações aplicáveis", instrui a Dra.
Na concepção da ginecologista, há uma outra dimensão especialmente necessária em Feira de Santana: ampliar o olhar para as mulheres que já passaram pelo câncer. São necessárias mais abordagens sobre reabilitação, menopausa induzida pelo tratamento, saúde íntima, sexualidade, saúde mental e qualidade de vida. "São assuntos que ainda encontram silêncio, constrangimento ou pouca informação. Como médica e como mulher que viveu essa experiência, acredito que posso contribuir para abrir esse diálogo. Meu desejo é que Feira de Santana avance não apenas na conscientização sobre o câncer de mama, mas também na construção de uma cultura de cuidado com a mulher que sobreviveu a ele. Outubro Rosa precisa lembrar que, depois do diagnóstico e do tratamento, existe uma vida inteira que merece atenção, dignidade e cuidado", conclui.
Foto da capa: Arquivo Pessoal
Por Cristiano Sales,
jornalista e escritor.

















