A balança é só a parte que aparece

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Quase toda conversa sobre tirzepatida que chega ao meu consultório começa pelo mesmo número. Quantos quilos dá para perder. Em quanto tempo. Se a roupa vai voltar a servir antes do casamento da filha, antes das férias, antes do aniversário de 40 anos.

Eu entendo. O peso é o que a gente enxerga no espelho e o que a balança devolve todo dia de manhã. Mas depois de acompanhar muitos pacientes em tratamento, e de ler com calma os estudos que saíram nos últimos anos, passei a olhar para esse medicamento de outro jeito. O emagrecimento é a parte visível de uma mudança que acontece em lugares que ninguém pesa: nos rins, no coração, no fígado, na respiração durante a noite.

É sobre essa parte que eu quero falar com você hoje.

Antes de tudo: obesidade é doença

Parece óbvio, mas ainda precisa ser dito. Obesidade não é falta de força de vontade, e o excesso de gordura não fica quieto no corpo. A gordura que se acumula em volta dos órgãos, principalmente na barriga, produz substâncias inflamatórias, atrapalha a ação da insulina, sobrecarrega o coração e interfere no funcionamento de quase todos os sistemas do organismo.

Por isso, quando um tratamento reduz essa gordura de forma consistente, os efeitos aparecem em lugares que à primeira vista não têm nada a ver com o tamanho da calça. E foi exatamente isso que os pesquisadores começaram a medir.

Os rins

Esse é um dos achados que mais me chamam atenção, porque o rim adoece em silêncio. A pessoa só começa a sentir alguma coisa quando boa parte da função já se perdeu.

No estudo SURPASS-4, feito com pessoas com diabetes tipo 2 e alto risco cardiovascular, quem usou tirzepatida perdeu função renal num ritmo bem mais lento do que quem usou insulina glargina: cerca de 1,4 unidade da taxa de filtração por ano, contra 3,6. O risco de surgir uma quantidade alta de proteína na urina, um dos primeiros sinais de que o rim está sofrendo, caiu em torno de 60%.

Depois veio o SURPASS-CVOT, o maior estudo já feito com o medicamento, com mais de 13 mil participantes acompanhados por mais de quatro anos. Na análise dos rins, os eventos renais graves aconteceram em 6% de quem usou tirzepatida e em 7,6% de quem usou dulaglutida, um remédio que já tem proteção conhecida. Entre os pacientes com doença renal de risco muito alto, a redução chegou a 33%.

Para quem convive ao mesmo tempo com diabetes, pressão alta e excesso de peso, uma combinação muito comum, esse dado muda a conversa no consultório.

O coração

O estudo SUMMIT acompanhou pessoas com obesidade e um tipo de insuficiência cardíaca em que o coração fica rígido e tem dificuldade para relaxar entre um batimento e outro. Hoje esse é o tipo mais comum de insuficiência cardíaca, e ele tem uma relação muito próxima com o excesso de peso e a inflamação.

Em cerca de dois anos, a tirzepatida reduziu em 38% o risco de piora da insuficiência cardíaca e em 56% o risco de internação por causa dela. Os pacientes também relataram menos falta de ar, mais fôlego para as tarefas do dia e menos limitação física.

No SURPASS-CVOT, em pessoas com diabetes e doença cardiovascular já instalada, o medicamento manteve a proteção contra infarto, AVC e morte cardiovascular, e ainda foi associado a 16% menos mortes por qualquer causa.

O fígado

Gordura no fígado virou um dos diagnósticos mais frequentes que eu vejo, e muita gente só descobre num ultrassom pedido por outro motivo. Quando essa gordura inflama e começa a formar cicatriz, a doença passa a se chamar MASH, e o caminho pode terminar em cirrose.

No estudo SYNERGY-NASH, com pacientes que já tinham fibrose confirmada por biópsia, a inflamação do fígado desapareceu em 44% a 62% de quem usou tirzepatida, dependendo da dose. No grupo que recebeu placebo, isso aconteceu em 10%. Mais da metade dos pacientes tratados também teve melhora da fibrose.

O sono

Ronco alto, acordar cansado, sono picado, aquele cochilo inevitável depois do almoço. Muitas vezes isso tem nome: apneia obstrutiva do sono. E ela anda de mãos dadas com o excesso de peso.

No SURMOUNT-OSA, a tirzepatida reduziu em média 25 paradas respiratórias por hora de sono, contra cerca de 5 no grupo placebo. O resultado foi tão consistente que, no fim de 2024, a FDA aprovou o medicamento para apneia moderada a grave em adultos com obesidade. Foi o primeiro remédio aprovado para essa condição nos Estados Unidos.

Quem passa a dormir melhor costuma perceber o resto da vida mudando junto: mais disposição, humor mais estável, fome mais fácil de controlar e menos esforço para o coração.

O diabetes que não chegou

Pré-diabetes é aquela fase em que o exame já mostra a glicose acima do ideal, mas ainda não o bastante para fechar o diagnóstico. É uma janela de oportunidade, e pouca gente aproveita.

No acompanhamento de três anos do SURMOUNT-1, entre pessoas com pré-diabetes e excesso de peso, 13,7% das que receberam placebo desenvolveram diabetes tipo 2. Entre as que usaram tirzepatida, foram 2,4%. Isso representa uma redução de risco de 94%, e a grande maioria dessas pessoas voltou a ter glicose normal.

E o câncer de mama?

Aqui eu preciso ser muito honesto com você, porque é o tema em que mais vejo exagero na internet.

O que a ciência sabe com segurança é que a obesidade está ligada a pelo menos 13 tipos de câncer, entre eles o de mama depois da menopausa, o de endométrio, o de intestino, o de fígado e o de pâncreas. Também se sabe que mulheres com obesidade tendem a ter uma evolução pior quando recebem o diagnóstico de câncer de mama, e que perder peso melhora esse cenário.

Em 2025, pesquisadores da Universidade de Michigan apresentaram no congresso da Endocrine Society um estudo em que camundongos obesos tratados com tirzepatida tiveram tumores de mama menores do que os que não receberam o medicamento. É um resultado animador, mas foi feito com 16 animais, e os próprios autores fizeram questão de chamar os dados de muito preliminares.

Em humanos, já existe um estudo em andamento na Rutgers, nos Estados Unidos, testando a tirzepatida em mulheres em tratamento para câncer de mama inicial com receptor hormonal positivo. Além da perda de peso, os pesquisadores vão observar se a chance de a doença voltar nos três anos seguintes muda.

Os dados de vida real também trazem sinais interessantes. Um estudo publicado na revista Annals of Oncology, com adultos com obesidade e sem diabetes, encontrou risco 41% menor de cânceres ligados à obesidade em quem usava medicamentos dessa classe, e a queda foi ainda mais expressiva entre os usuários de tirzepatida. Outro levantamento, com quase 20 mil pessoas com diabetes e excesso de peso, registrou menos casos de câncer de ovário no grupo tratado.

São estudos observacionais. Eles mostram uma associação, mas não provam que o remédio foi a causa. Por isso eu não vou te dizer que a tirzepatida previne câncer de mama. O que eu posso te dizer é que tratar a obesidade reduz um dos fatores de risco mais importantes para essa doença, e que a ciência está levando essa pergunta muito a sério.

O que o remédio não faz

Eu seria irresponsável se terminasse o artigo aqui.

A tirzepatida não trabalha sozinha. Ela reduz a fome, melhora a resposta à insulina e facilita a perda de gordura. Mas quem escolhe o que vai no prato, quem treina para não perder músculo junto com a gordura, quem cuida do sono, quem faz os exames e volta para as consultas é você.

No próprio SURMOUNT-1, quem interrompeu o tratamento começou a recuperar o peso, e com ele voltou também a subida da glicose. Isso mostra, na prática, o que a medicina vem dizendo há anos: obesidade é uma doença crônica, e doença crônica pede plano, acompanhamento e ajuste ao longo do tempo.

Também estamos falando de um medicamento com efeitos colaterais, contraindicações e doses que precisam ser escolhidas com critério. Usar por conta própria, com caneta de procedência duvidosa, porque uma conhecida usou e deu certo, é o caminho mais curto para perder saúde junto com os quilos.

Quem faz a mudança é você

Depois de tantos anos de consultório, uma coisa ficou muito clara para mim. O paciente que muda de vida não é salvo por ninguém. Ele decide, entende o que está acontecendo no próprio corpo e segue um plano. O meu papel é mostrar o caminho, pedir os exames certos, corrigir a rota quando for preciso e garantir que ele nunca caminhe no escuro.

A tirzepatida pode fazer parte desse plano. Para muita gente, ela é a ferramenta que finalmente destrava um processo que parecia impossível. Mas a proteção que ela oferece aos rins, ao coração, ao fígado e ao sono depende de como ela é usada e de quem está ao seu lado durante o tratamento.

Se você chegou até aqui, talvez a pergunta mais importante deixe de ser quantos quilos você quer perder. Talvez passe a ser que saúde você quer ter daqui a dez anos.

Dr. Igor Neri

Referências

1. Heerspink HL et al. Efeitos da tirzepatida vs. insulina glargina sobre a função renal no SURPASS-4. The Lancet Diabetes & Endocrinology, 2022.

2. Análise renal do SURPASS-CVOT (tirzepatida vs. dulaglutida). ASN Kidney Week, 2025.

3. Nicholls SJ et al. Cardiovascular Outcomes with Tirzepatide versus Dulaglutide in Type 2 Diabetes (SURPASS-CVOT). New England Journal of Medicine, 2025.

4. Packer M et al. Tirzepatide for Heart Failure with Preserved Ejection Fraction and Obesity (SUMMIT). New England Journal of Medicine, 2024.

5. Loomba R et al. Tirzepatide for Metabolic Dysfunction–Associated Steatohepatitis with Liver Fibrosis (SYNERGY-NASH). New England Journal of Medicine, 2024.

6. Malhotra A et al. Tirzepatide for the Treatment of Obstructive Sleep Apnea and Obesity (SURMOUNT-OSA). New England Journal of Medicine, 2024. Aprovação FDA, dezembro de 2024.

7. Jastreboff AM et al. Tirzepatide for Obesity Treatment and Diabetes Prevention (SURMOUNT-1, 3 anos). New England Journal of Medicine, 2024.

8. Kucinskas A et al. Tirzepatida e crescimento de câncer de mama associado à obesidade em modelo animal. ENDO 2025, Endocrine Society.

9. FITWISE: Tirzepatide for Weight Loss Intervention in Early-Stage HR+/HER2- Breast Cancer. Rutgers Cancer Institute. ClinicalTrials.gov NCT06518837.

10. Agonistas de GLP-1 e risco de câncer em adultos com obesidade sem diabetes. Annals of Oncology, 2025/2026.

11. Ipaye T et al. Weight loss interventions and obesity-associated cancers in people with type 2 diabetes and overweight/obesity. Diabetes, Obesity and Metabolism, 2025.

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