Vocês pediram e o CONTORNO atendeu! A parte I do quadro “ruas e bairros de Feira de Santana” trouxe lembranças, polêmicas, histórias urbanas e até possibilidades de escavações no bairro da Muchila, não é mesmo Taciane? (@tacirs_). Mas deixa baixo, o CONTORNO é contraindicado em caso de suspeitas de escavação dos seus seguidores.
Apesar das brincadeiras, a Princesinha do Sertão ainda esconde transformações urbanas que perpassam os seus 193 anos de emancipação política. Na terra de Lucas da Feira, de George Américo e de Maria Quitéria, engana-se quem acha que Feira de Santana não tem história pra contar.
Atendendo a pedidos, inclusive o de Carla Lemos (@carlaalemos91), o CONTORNO foi buscar a origem de outros bairros, como o caso do George Américo e da Pedra do Descanso. Para auxiliar nessa jornada, nós convidamos o historiador e pesquisador Carl Lima para guiar o leitor sobre as curiosidades que permeiam às ruas e vielas de Feira. Muchilas prontas? Então vamos nessa:

Foto: Arquivo Pessoal CONTORNO
Bairro George Américo: de onde vem essa vontade de falar de aviões?
Os fãs de Santos Dumont devem ir à loucura ao visitar o bairro do George Américo, em Feira de Santana. Mas você sabe por que assim foram batizadas as ruas aeroporto, aviação, pouso, satélite, míssil, infraero, asa delta, embarque […] e por aí vai? Segundo Carl Lima, a formação do bairro, o conjunto George Américo, possui duas facetas que dão singularidade ao bairro.
“Um de caráter voltado à elite de Feira de Santana e outro com caráter extremamente popular, talvez o movimento mais popular que Feira de Santana já teve, onde alçou o nome de George Américo, um líder popular, para a história da cidade. Feira de Santana, na década de 80, elegeu a esposa dele, a primeira vereadora mulher em Feira de Santana. Então, a história do bairro George Américo tem duas perspectivas“, comenta.
A perspectiva da elite, segundo Carl Lima: “a região onde está hoje o bairro do George Américo fica oficialmente numa determinada localidade do bairro Campo Limpo. Essa região, na década de 40, especificamente de 1942, na gestão do prefeito Heráclito de Carvalho[…]. E Heráclito de Carvalho foi um prefeito moldado no que a gente chama de projeto de modernização de Feira de Santana, projeto de urbanização de Feira de Santana. Obviamente, uma modernização conservadora, uma modernização que não levava em consideração feirantes, negros, nortistas, sertanejos. Ou seja, a população pobre, trabalhadora de Feira de Santana, ele resolve, como um dos pontos para modernizar Feira de Santana, criar um aeroporto. Obviamente que Feira de Santana naquele momento não tinha capacidade de ter um aeroporto. Então fizeram-se um movimento e Feira de Santana criou um campo de aviação ou um aeroclube. Para isso, Feira de Santana, o prefeito, a Câmara de Vereadores, fizeram um acordo com a Assis Chateaubriand. Um homem de grandes ideias, um homem liberal que fomentou pelo Brasil o desenvolvimento das mídias, um homem que buscou a modernização pelos quatro cantos do Brasil a partir do investimento privado. Ele já tinha uma relação com Feira de Santana, ele então ajuda a construir esse campo de aviação, esse aeroclube, inclusive ele que doa os primeiros aviões e junto com esses aviões, ele cria-se uma escola de aviação, era o sonho, a ideia do voar como algo extremamente moderno. Então, assim, essa região que hoje é o George Américo foi ocupada pelo campo de aviação, isso em 1942″, explica.

Foto: Arquivo Pessoal CONTORNO
A perspectiva popular, segundo Carl Lima: “Em 1985, esse campo de aviação é transferido para o bairro do Santo Antônio dos Prazeres, onde é inaugurado o aeroporto de Feira de Santana, o aeroporto João Durval Carneiro, inclusive na gestão do próprio João Durval Carneiro, enquanto governador da Bahia. É nesse momento que aparece George Américo, onde era o campo de aviação, onde era o aeroclube, Esse espaço ficou abandonado. E na região existia muitas pessoas sem habitação. Então, o George Américo, em 87, no final de 86, início de 87, ele lidera um grupo de sem-tetos que ocupa a região que era o campo de aviação. Para que seja loteado aquele espaço para a população que não dispunha de casas, que viviam com aluguel muito caro. E assim, George Américo faz a luta. Como todos nós sabemos, George Américo foi assassinado de maneira brutal. Porém a semente, a ideia dele foi colocada pelo menos dentro de um modelo ali se tornou um bairro popular, um conjunto popular, o espaço de fato foi desapropriado e a esposa dele, a companheira dele inclusive foi eleita vereadora. E George Américo virou um mártir de Feira de Santana, talvez George Américo e Lucas da Feira sejam os dois ícones da luta popular, da luta dos subalternizados em Feira de Santana.E como herança disso tudo, é válido acrescentar que as ruas do George Américo fazem menção diretamente à aviação, falando dessa trajetória do campo de aviação. Então a rua principal do George Américo se chama aeroporto, existe uma rua com o nome aviação, existe uma rua com o nome decolagem, existe uma rua com o nome pouso, existe rua com o nome ultraleve, existe uma rua chamada satélite, existe uma rua chamada míssil, existe uma rua chamada infraero, existe uma rua chamada aeroplano”, complementa.
Bairro Pedra do Descanso: “descansar né? Que o homem não é de ferro!”
Se você já ouviu a expressão “descansar, que o homem não é de ferro” e associou à origem do bairro, associou quase que corretamente. Lugar de repouso para os tropeiros, conforme conta a história, a localidade onde está a Pedra do Descanso seria, inclusive, uma das entradas de Feira de Santana. A explicação é do historiador Carl Lima:
“O bairro Pedra do Descanso fica numa região que seria uma das entradas da cidade. Feira de Santana, como uma localidade marcada historicamente por ser uma zona de passagem, uma cidade de passagem, uma cidade encruzilhada; e isso nos dias de hoje dá a Feira o título de maior entroncamento rodoviário do Norte e Nordeste, um dos maiores entroncamentos rodoviários do Brasil. É uma continuidade dessa história, dessa especificidade de Feira. Ao longo do seu processo de povoamento, passa aqui por Feira de Santana a estrada da boiadeira, a estrada real, ou seja, uma estrada extremamente importante para a circulação de pessoas e mercadorias nos 300, 400 anos do Brasil, principalmente quando as tropas faziam essa circulação num ambiente que não era navegável, anterior à presença das ferrovias. […] E essa região da Pedra do Descanso era uma das entradas de Feira de Santana, uma das entradas dessa peculiaridade. A pedra do descanso fica ali perto do próprio do próprio entroncamento, então, na década de 40 do século XX, opta-se por se construir a BR-116 Sul, ou como na época ficou conhecida a rodovia Rio-Bahia. Justamente a Pedra do Descanso, recebe em Feira de Santana, na sua área urbana, a passagem dessa Rio-Bahia, dessa BR-116 Sul, que interliga, por exemplo, a Bahia e o Nordeste ao sudeste brasileiro — uma rodovia extremamente importante para o tráfico de mercadorias e da matéria-prima retirada aqui no Nordeste e levada para o Sudeste. E nessa localidade está a Pedra do Descanso”, relata.

Foto: Arquivo Pessoal
Seria essa a entrada de Feira de Santana por proximidade ao rio Jacuípe. E ali tropeiros, as tropas, e viajantes a cavalo paravam para descansar e se abastecer de água: localidade que ficou conhecida como Pedra do Descanso. Segundo Carl, o local era atravessado por um acidente geológico, onde as pessoas podiam também ter uma sombra enquanto descansavam. E dessa trajetória, quem dá notoriedade à Pedra do Descanso é a presença de Lucas da Feira.
“Segundo os biógrafos e suas pesquisas, (Pedra do Descanso) era um local que Lucas da Feira gostava de ficar, onde seu bando muitas vezes se escondia por duas situações. Primeiro, por ser uma região de passagem de mercadoria e pessoas, então aquela região seria de fácil acesso para ele saltear os grupos, como também seria uma das entradas da Vila da Feira de Santana. A presença de Lucas é mais ou menos ali na década de 30 do século XIX, e em 1848 é preso. Então Lucas, no final de 1839, 1843, 1844, é o momento que ele mais age. E essa notoriedade… de Lucas da Feira, impulsiona o nome da Pedra do Descanso. Inclusive, há cerca de 20 anos atrás, a Associação do Bairro da Pedra do Descanso, indicou que se colocasse um busto e tivesse o nome da praça principal do bairro a ser dado com o nome de Lucas da Feira, Lucas Evangelista. Isso gerou uma grande celeuma na Câmara de Vereadores, que embargou essa homenagem, com toda peculiaridade e discussões que cabem à trajetória de Lucas da Feira. Então, Pedra do Descanso é um bairro de Feira de Santana que remete às tradições de Feira de Santana como lugar de passagem, como lugar de tropeiros e vaqueiros, muito embora, principalmente naquela região, eram muito mais tropeiros”, conclui Carl.
E quando chega a Parte III dos bairros de Feira de Santana?
Calma Gilvan (@gilvanfrancados), você tem razão, Feira é realmente muito maior do que a gente imagina, não só em extensão territorial, como na quantidade de histórias. Sobre a continuação, ainda temos uma promessa com Lucas Coutinho (@lucas98116452): os motivos por trás do Bairro SIM. Até lá.
Foto da capa: Reprodução
Por Cristiano Sales,
jornalista e escritor.

















