Em Feira de Santana, olhar para alguns dos endereços mais conhecidos da cidade é também descobrir o que existia ali antes. Onde hoje há lojas, galerias, avenidas e bairros consolidados, já estiveram casarões, fazendas e currais. Para comemorar os 193 anos da cidade, o Portal CONTORNO foi em busca dos historiadores Fernando Souza e Vicente Gualberto, que reuniram fatos históricos e memórias de uma Feira que já não existe na paisagem, mas permanece na trajetória.
Antes de Domingos Barbosa de Araújo e Ana Brandoa entrarem para a história como nomes ligados à origem de Feira de Santana, as terras onde a cidade se formaria já tinham outro proprietário. O historiador feirense Fernando Souza conta que a área pertenceu a Antônio Peixoto Viegas, personagem menos conhecido dessa história.

“Feira de Santana, antes de estar com esse casal, toda ela pertenceu a um cara chamado Antônio Peixoto Viegas. Esse agricultor, vamos dizer assim, possuiu Feira de Santana inteira. Feira de Santana era uma sesmaria de 36 km².”
A dimensão impressiona. Segundo Fernando, as terras se estendiam de áreas próximas a Belém de Cachoeira até as proximidades de Santa Bárbara, ocupando um território maior do que aquele que daria origem a Feira.
Outra imagem difícil de associar à cidade de hoje está em uma das regiões mais movimentadas de Feira. O caminho entre o Fórum Filinto Bastos e o Boulevard Shopping, hoje cercado por avenidas, prédios e estabelecimentos comerciais, já foi ocupado por grandes currais.
“De onde hoje é o Fórum Filinto Bastos até o Boulevard Shopping, tudo aquilo ali era curral. Feira de Santana se destacava muito pela criação e venda de gado, eram somente currais, gigantescos currais.”
A presença do gado não era pequena. No século 19, de acordo com Fernando, Feira chegou a negociar cerca de 100 mil cabeças por mês. Mas antes de se consolidar como espaço de comércio, a região servia como parada para tropeiros e animais. Um dos motivos estava na quantidade de água disponível.
“Feira de Santana antes da sua formação enquanto vila chegava a ter entre 720 e 740 nascentes de água, seja rio, seja lagoa, seja aquilo que a gente chama de brejo. E por isso que ela era tão atrativa para o gado repousar, né? O gado tinha água farta, tinha capim farto.”
É daí que surge uma diferença importante nessa história. Antes de existir uma feira de gado, existia uma parada de gado. As águas e pastagens faziam da região um ponto favorável para descanso durante as viagens. Com o aumento desse movimento, as paradas ganharam força comercial e passaram a integrar a formação de Feira de Santana como lugar de circulação e negócios.
Outro episódio recuperado pelo historiador envolve a passagem de Dom Pedro II por Feira de Santana. O imperador esteve hospedado no antigo Palácio do Menor, no atual Sesc Centro. Durante a visita, cumpriu compromissos oficiais e religiosos, mas também teria conhecido uma área que atravessou gerações com outra identidade.

“Uma das atividades que ele fez aqui em Feira de Santana, ele foi à missa, ele cumprimentou autoridades, mas pós-missa ele foi na Rua do Conhaque, foi tomar um conhaque, no famoso Beco do Conhaque, que hoje é popularmente conhecido como Beco da Energia.”
Se Fernando Souza recupera elementos da formação histórica da cidade, o historiador Vicente Gualberto percorre outra Feira. É a cidade vista por quem caminhou pelas ruas quando muitos endereços do atual centro comercial ainda eram residenciais. Suas lembranças aproximam a história urbana da experiência cotidiana e permitem identificar o que existia antes em pontos hoje conhecidos por outras funções.
Na Rua Senhor dos Passos, por exemplo, Vicente recorda uma configuração residencial marcada por imóveis construídos lado a lado. Onde atualmente está parte da maior concentração comercial da cidade, ficava a casa de uma colega.
“Me lembro onde hoje a Lupalina, na Senhor dos Passos, era a casa de minha colega, Mônica. Aquelas casas ali, elas não tinham janela, porque era agarrado uma na outra, então era aquele corredor comprido. E de manhã cedo, quando eu passava para a escola, a porta da frente estava aberta, tinha um portãozinho pequeno. Você abria a porta da frente, tinha tipo um rolo de entrada, e mais adiante tinha outra porta que dava para casa.”
A memória também alcança a região onde funciona a Galeria Arnold Silva Plaza. Vicente se recorda de encontrar ali uma residência antiga, cercada por muros e grades. Em outros trechos do centro, casarões ocupavam esquinas que posteriormente assumiriam caráter comercial. Na esquina da Senhor dos Passos com a Avenida Sampaio, ele situa a antiga Rádio Carioca.
“Na Sr. dos Passos, esquina com Avenida Sampaio, você tinha Rádio Carioca. Era um casarão antigo, muito antigo, que existia ali. Eu cheguei uma vez e dei uma entrevista ali, já como professor.”
Há ainda endereços associados a personagens da vida política brasileira. No imóvel onde Vicente localiza atualmente a loja Mega Thorra, ele se lembra da residência de Francisco Pinto, ex-prefeito de Feira de Santana e exilado durante a ditadura militar. A casa, segundo sua recordação, era rosa e tinha um grande jardim lateral.
“Era a casa de Seu Chico Pinto. Chico Pinto era conhecido como eterno comunista, foi exilado, foi prefeito de Feira. Nessa casa Seu Chico Pinto mantinha o quarto que Getúlio Vargas, quando esteve em Feira de Santana, dormiu.”
As transformações aparecem de forma ainda mais pessoal quando Vicente retorna à própria infância. Ex-morador da Rua de Aurora, ele conta que, naquele período, a área ainda preservava características rurais.
“De frente à minha casa era uma fazenda. Hoje está tudo loteado, tudo casa, e eu ia buscar o leite de manhã cedo ali. Imagine, uma fazenda no centro da cidade.”

É nessa lembrança que surge Eduardo Fróes da Motta, médico e político que dá nome a espaços públicos de Feira de Santana. Vicente conta que o conheceu pessoalmente por intermédio da mãe. Ainda adolescente, entrou na residência dele e encontrou algo que permanece na memória por décadas.
“Eu passei e falei com o doutor Eduardo, e eu entrei na casa, e a casa tinha uma sala de música, e na sala de música tinha um piano. E eu podia ter meus 13 anos, e eu fiquei fascinado porque eu nunca tinha visto um piano. Não era um piano de cauda, mas era um piano.”
A Feira guardada por Vicente também tinha praças floridas e uma relação diferente com determinados espaços públicos. “As praças tinham flores. Imaginem, a gente não vê nada hoje. As praças tinham flores, você via borboleta na praça, você via beija-flor na praça.”
Entre sesmarias, nascentes, currais, fazendas e casarões, as histórias reunidas por Fernando Souza e Vicente Gualberto revelam uma Feira de Santana diferente daquela que se vê hoje. Neste 18 de setembro, revisitar essas memórias é descobrir que, por trás de endereços tão familiares, ainda existem muitas Feiras a serem conhecidas.
Foto de capa – Antônio Magalhães

















