Feira de Santana tem seu próprio repertório de terror. Longe das “bruxas de Salem”, dos vampiros de Hollywood ou dos demogorgons de Stranger Things, a cidade construiu um imaginário povoado por criaturas misteriosas, aparições, histórias de lagoas e personagens que atravessaram gerações. Neste 31 de outubro, o Portal CONTORNO revisita algumas dessas narrativas que dão ao Halloween feirense uma identidade própria.
O Bicho do Tomba é uma das figuras mais conhecidas desse universo. Associada ao bairro do Tomba, sua história circula há décadas na memória popular, com relatos de uma criatura que assustava moradores e provocava medo nas ruas. Sua representação também chegou à arte, eternizado por Lênio Braga e Horst Udo Knoff, transformando o personagem em uma das imagens mais reconhecíveis do folclore urbano feirense. É quase o “Godzilla” da Princesa do Sertão, com a diferença de que sua história nasceu nas conversas da própria cidade.

Foto: Reprodução
O bairro de Santa Mônica também aparece nesse imaginário com o Lobisomem, figura que atravessa o folclore brasileiro. A criatura é associada à transformação de um homem em fera durante a noite, especialmente nas narrativas ligadas à lua cheia. Conhecido também como o Lobisomem dos Capuchinhos, o conto de terror feirense aproxima o bairro de um dos personagens mais tradicionais do terror mundial, lembrando produções como Um Lobisomem Americano em Londres e Teen Wolf.
Já na Lagoa de Berreca, o mistério ganha contornos extraterrestres. O ET aparece nas histórias populares associadas à região, alimentando relatos de acontecimentos inexplicáveis e possíveis aparições. A narrativa tem todos os ingredientes de um episódio de Arquivo X, com uma paisagem conhecida pelos moradores e perguntas que permanecem no campo da imaginação popular.
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A Cabra Cabriola também integra esse repertório de criaturas assustadoras, mas que vai além da Princesinha do Sertão. Presente no folclore nordestino, a personagem é descrita como uma cabra monstruosa utilizada nas histórias para assustar crianças. Sua figura se aproxima de personagens como o Bicho-Papão e de monstros de Goosebumps, série que transformou os medos da infância em aventuras de terror.
O Cadeirudo é outro personagem divertido nas histórias de assombração, porém, popularizado em todo o país — não exclusivamente do território feirense. O mito absorveu e adaptou o famoso personagem da novela A Indomada (TV Globo, 1997) e rapidamente entrou para o imaginário e o folclore popular de várias cidades do Brasil.
A Xuxa Preta, no entanto, tem uma trajetória diferente. A personagem está associada a uma mulher real que circulava pela região da rodoviária e do Colégio Gastão Guimarães, na década de 1990. Entre os relatos, a Xuxa Preta era apontada como uma adolescente de cabelo baixo, pintado de loiro, remetendo à apresentadora Xuxa, mas que (dizem as histórias) tocava o terror nas redondezas . Com o passar do tempo, boatos e histórias de rua construíram uma imagem assustadora em torno dela, transformando uma pessoa em personagem do imaginário urbano.
Na Lagoa Grande, a Cuca também ganhou uma versão feirense. A narrativa está associada à presença de um jacaré na região, cuja imagem alimentou histórias de medo entre os moradores. A paisagem da lagoa, marcada pela vegetação e pela água, ajudou a construir o cenário perfeito para a lenda. A personagem lembra a Cuca do Sítio do Picapau Amarelo, com uma particularidade local ligada à memória ambiental da cidade.
A imponente Abóbora do Amélio Amorim completa esse passeio pelo Halloween feirense. Conhecida também como Jerimum, a construção foi concebida na década de 1970 como parte do Complexo Carro de Boi. Seu formato incomum transformou o espaço em uma referência arquitetônica e afetiva de Feira de Santana, especialmente pela ligação com a antiga boate que movimentou a vida noturna da cidade.

Foto: Sora Maia
A abóbora também tem ligação direta com o Halloween, cuja tradição popularizou as lanternas feitas com jerimum iluminado. O símbolo aparece em filmes como O Estranho Mundo de Jack e em decorações espalhadas pelo mundo durante outubro. Em Feira, a referência ganhou proporções arquitetônicas e uma história própria, ligada à cultura e ao lazer.
As histórias revelam uma Feira de Santana que também se construiu pela imaginação de seus moradores. Algumas criaturas nasceram do folclore nordestino, outras estão associadas a paisagens e acontecimentos locais, enquanto personagens reais acabaram incorporados às narrativas populares. Assim como nos grandes clássicos do terror, cada história guarda um pedaço dos medos e das lembranças de quem vive a Princesinha do Sertão.
Foto da capa: Reprodução
Por Cristiano Sales,
jornalista e escritor.

















