Conheça Marco Rocha e Júlia Lorrana, artistas que representam a nova cena feirense

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Carlos Pitta escreveu que ‘todos os caminhos levam à Feira de Santana’, mas a cidade já provou que não é apenas lugar de passagem. A cada dia, Feira cresce também como território de criação artística. Impulsionados pelas redes sociais, pela cena cultural independente e pela força das próprias narrativas, os artistas feirenses começam a ultrapassar os limites da cidade, conquistando projeção nacional e colocando a Princesinha do Sertão no mapa da nova produção cultural brasileira. Mais do que revelar talentos, Feira mostra que o interior também produz arte capaz de dialogar com o Brasil e com o mundo.

Natural de Retirolândia, mas com trajetória construída em Feira de Santana, Marco V. Rocha encontrou na cidade o espaço para transformar o interesse pela comunicação em caminho para o cinema. Foi durante o período da faculdade, em Feira, que ele começou a desenvolver projetos audiovisuais e a construir uma rede de jovens realizadores interessados em produzir cinema de forma independente. Desse movimento surgiu a Ticuna Filmes, criada inicialmente como um selo para reunir e identificar os trabalhos do grupo. Anos depois, Marco também passou a integrar a Candeeiro Filmes, produtora que atua tanto no audiovisual artístico quanto comercial, sempre buscando imprimir identidade, linguagem e perspectiva próprias em cada produção. “Feira é um lugar de encontro, é um lugar que pode até funcionar como passagem, só que algumas pessoas acabam se encontrando em Feira, elas acabam permanecendo”, destaca o cineasta, ao lembrar da relação construída com a cidade desde que chegou, em 2015, para estudar e iniciar sua trajetória no audiovisual.

Foto – Divulgação

Essa conexão com Feira impulsionou um desejo de levar as produções locais para além das fronteiras da cidade. Para Marco, a geração dele cresceu em um contexto em que a internet facilitava a circulação dos trabalhos audiovisuais, permitindo que curtas e webséries alcançassem públicos maiores. Segundo o cineasta, o reconhecimento dentro de mostras e festivais de cinema sempre teve um papel essencial nesse processo. Desde os primeiros projetos da Ticuna Filmes, como o curta ‘Conexões’, selecionado para a Mostra Contemporânea do Nordeste, o grupo passou a enxergar esses espaços como fundamentais para a valorização e celebração do cinema independente. Com o amadurecimento das produções, os filmes começaram a percorrer festivais em diferentes estados brasileiros e também no exterior, chegando a países como Inglaterra, Grécia e Estados Unidos.

“A gente entendeu que essa perspectiva de alcançar outros lugares vinha muito dessa noção de que a gente precisava acessar esses locais de celebração do cinema. São lugares que proporcionam contatos, celebrações acerca dessa arte que a gente se debruça a fazer desde sempre”, afirma Marco.

Foto – Divulgação

Assim como Marco, Júlia Lorrana faz parte de uma geração de artistas que construiu a trajetória em Feira de Santana a partir do teatro e do audiovisual independente. Atriz e produtora cultural, Júlia iniciou a formação artística ainda na adolescência, nas oficinas do CUCA, onde passou a atuar em espetáculos, curtas-metragens e projetos audiovisuais produzidos na cidade. Entre os trabalhos recentes estão o curta ‘Patrícia‘ pela Candeeiro Filmes, selecionado para a Mostra Sesc de Cinema e indicado ao LABRFF Orlando, além da atuação na Cia ÚNICA de Teatro, companhia que ajudou a fundar, ganhando em 2026 o Prêmio SHELL de Teatro, com a peça ‘Akoko Lati Wani’ voltada para identidade, ancestralidade e cultura popular. A repercussão do curta e da peça reforça um movimento que, segundo Júlia, revela o surgimento de uma nova geração de artistas em Feira de Santana, formada por jovens que têm ocupado espaços no cinema, no teatro e em diferentes linguagens culturais.

Foto – Dryka Almeida

Para Júlia Lorrana, o destaque conquistado por produções feirenses nos últimos anos também acompanha o surgimento de uma nova geração de artistas na cidade. Segundo ela, há um movimento cada vez mais forte de jovens atores, produtores e realizadores buscando profissionalização e ocupando espaços dentro do teatro e do audiovisual.

“Existe sim uma nova geração de artistas surgindo, de artistas montando suas peças, querendo se profissionalizar, buscando melhorar enquanto profissional”, destaca. Para a atriz, Feira de Santana vive atualmente um importante momento cultural, com crescimento de público e fortalecimento de projetos já consolidados na cidade. Ela cita, como exemplo, a movimentação em torno do ‘Feira Tem Teatro’, que faz peças sobre a história de Feira e da Bahia, além das apresentações da Cia ÚNICA, que costuma lotar espaços culturais e ampliar o interesse do público local pelas produções feirenses. “As pessoas que não consumiam arte, passam a consumir, passam a falar, a se interessar. Então está acontecendo, a sociedade feirense está mudando e gostando de cultura. Está muito forte esse movimento”, completa.

Foto – Dryka Almeida

Em um movimento construído entre produções independentes, redes de apoio e ocupação dos espaços culturais, Feira de Santana começa a consolidar uma cena artística cada vez mais forte, diversa e conectada com o mundo, sem perder as raízes que marcam a produção cultural construída na cidade.

Se antes muitos precisavam sair para serem vistos, hoje a Princesinha do Sertão começa a provar que seus talentos podem nascer, crescer e permanecer aqui, fazendo da cidade não apenas lugar de passagem, mas também de permanência e reconhecimento.

Por – Dafne Santiago

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