De Feira para o mundo, o fotógrafo e documentarista baiano Arivaldo Publio (@arivaldopublio) conquistou um reconhecimento especial no concurso internacional“The Shape of a Moment”, promovido pela Exposure Photo Gallery, com sedes em Nova York e Buenos Aires. A premiação foi celebrada pelo feirense em suas redes sociais (@arivaldopublio) na última sexta-feira, 7, e levantou a cidade na celebração pela premiação inédita.
A obra premiada, “Graffiti e Transformação”, retrata a periferia a partir de um olhar sobre resistência, beleza e transformação. A fotografia se destacou entre milhares de inscritos, conectando às lentes da Princesinha do Sertão ao mundo, sob o olhar sensível assinado por Ari Publio. A história por trás do feito internacional, no entanto, registrada no bairro de Itapuã, em uma viagem por Salvador, foi totalmente despretensiosa — sem qualquer tipo de contrato ou remuneração, apenas o amor por registrar diferentes expressões artísticas.

Foto: Arivaldo Publio
Confira, a seguir, a entrevista exclusiva concedida pelo fotógrafo ao Portal CONTORNO, dos bastidores da fotografia, passando pelo Bando Anunciador, até a emoção de levar a arte feirense para o cenário internacional. Acompanhe abaixo:
1. Antes do prêmio internacional, você teve uma longa caminhada entre fotografia, cinema, comunicação e cultura. Qual foi o clique (literalmente ou simbolicamente) que mudou sua relação com a fotografia? Você tem essa recordação?
“Acredito que não tenha um clique específico, tem lembrança de vários, mas pra mim, fotografar o Bando Anunciador sempre foi marcante pra mim. Eu posso dizer que minha fotografia começou nos mesmos passos que eu conheci o Bando Anunciador. Eu conheci o Bando Anunciador fotografando, e hoje eu já completo 12 edições fotografando o Bando. Pra mim, quando você me falar de fotografia, do meu jeito de fotografar, é como se fosse teletransportar para o Bando Anunciador, para a série da matriz, para especificamente o primeiro Bando, que é o que sai do Cuca, com várias senhoras. Eu que fui professor do Cuca, já após seis anos fotografando, me deu mais um significado. Essa primeira saída do Bando, para mim, é uma coisa que eu tento seguir rigorosamente. Chegar às seis da manhã e fotografar. Essa primeira saída, para mim, acho que é um portal. E nesse momento do primeiro Bando, é uma coisa marcante na fotografia para mim”, lembra.


Fotos: Ari Publio
2. A foto premiada “Graffiti e Transformação” nasceu de um olhar sobre a arte urbana, do graffiti. Nas suas redes, a gente percebe muito da rua, das manifestações culturais e das histórias que muitas vezes são invisibilizadas. Como foi para você receber essa premiação, a partir de algo que você defende? É a certeza de estar no caminho certo?
“Para mim, esse prêmio e esse reconhecimento é super importante. Eu acredito que valoriza o graffiti de uma maneira geral, mas a imagem específica mostra muito a questão do Brasil sem a periferia. Mais importante ainda, que mesmo eu fotografando diversos projetos, diversos editais sobre graffiti, esse em específico não foi um trabalho. Eu não fui contratado, muito menos remunerado. Partiu de uma ligação do artista inclusive, que aparece na imagem, perguntando se eu estava fazendo alguma coisa, e eu acabei indo para uma comunidade chamada Alto do Coqueirinho, que fica em Itapuã, uma área periférica. E para mim foi uma tarde como se fosse, não uma brincadeira, porque eu estava com a câmera, mas foi uma tarde de lazer, no qual, passado acho que três ou quatro anos dessa imagem, ser premiada, acho que significa muito, pela iniciativa de eu ter ido, eu poderia ter dito ‘não’, porque queria trabalhar. Então foi muito uma recompensa do ‘sim’ naquela ida para a comunidade do Alto do Coqueirinho”, comenta.



Fotos: Ari Publio
3. Feira de Santana tem uma produção cultural muito forte. Depois desse reconhecimento, como você acha que a fotografia feirense pode ganhar ainda mais espaço e mostrar novos olhares?
“Eu acredito que Feira de Santana, na sua característica como cidade, pode influenciar diversos fotógrafos. Eu sou um fotógrafo feirense, mas já trabalhei em mais de 50 cidades da Bahia, justamente pela questão logística da cidade. É o maior entroncamento rodoviário do Nordeste. Então a possibilidade, além de fotografar Feira de Santana, eu falo Feira de Santana, a sede, como seus distritos, que são oito no total, que tem uma variedade geográfica, de cenário muito grande. O profissional que é da cidade tem a característica de poder viajar por todo o interior do estado. Aí você coloca as 417 cidades da Bahia com 417 possibilidades para serem fotografadas e a logística por estar em Feira de Santana é muito peculiar. Além das fotografias na cidade nos distritos, a possibilidade de você viajar pela Bahia e pelo celeiro cultural que é a Bahia, no interior do estado, facilita bastante”, revela.



Fotos: Ari Publio
“O fotógrafo de Feira de Santana tem essa característica, ele já está habituado a fazer viagens pelos municípios. Se você for traçar uma linha reta de 120 quilômetros, você pega tanto Salvador como a capital, mas pega toda uma região Recôncavo, um pouco do Portal do Sertão, outras regiões também. E aí você consegue ter uma abrangência pela mobilidade, que eu acho que é uma grande característica para quem trabalha com audiovisual ou qualquer outro tipo de ramo na cidade. Feira tem a característica de ser pujante, principalmente para o interior do estado”, complementa.
4. Quando você pensa na sua história e no caminho que construiu até aqui, existe alguma influência da sua família que ajudou a formar o artista que você é hoje?
“Minha referência fotográfica não vem da minha família, não é uma coisa familiar. Meu pai nem tanto, meu pai também não é muito ligado às artes, não. Mas minha mãe… ela tem uma influência muito grande, não na fotografia, mas na preservação. Eu tenho memórias de minha mãe colocando num álbum de fotografia, como era de costume, a data, dia, mês. Mas principalmente as pessoas que estavam nas fotografias. Eu sei que quando vem o aniversário infantil, você conhece pai, mãe, tio, prima, padrinho, madrinha. Mas ela tinha a dedicação de colocar todas as pessoas que apareciam. E isso foi também quando lá em casa teve a primeira filmadora VHS. Eu lembro que minha mãe colocava nas fitas o ano, o que era, quem tava”, comenta.



Fotos: Ari Publio e Junior Araujo (3ª foto)
“E dando as voltas que o mundo dá, quando eu fui estagiário na Secretaria de Comunicação do município, no qual tinha uma redação, um jornal, eu fui trabalhar com o CEDOC. O CEDOC nada mais é que registrar, catalogar fotografias, principalmente as fotografias quase que centenárias da cidade, principalmente entre 50, 60 e 70 anos. E hoje a produtora ‘Ser Tão Filmes’ e eu também me coloco, tenho o registro de todas as fotografias, projetos, documentários que eu fiz. Então eu acho que essa migração primeiro da minha mãe, depois de trabalhar no CEDOC, e hoje eu consegui ter preservado, desde a minha primeira fotografia na faculdade, como diversos outros projetos, documentários que eu faço, eu acho que a influência é realmente da minha mãe, essa questão da importância de além de armazenar. De qualquer forma, ter esse registro, e eu lembro muito da caligrafia da minha mãe, escrevendo nos álbuns e nas fitas VHS. Então talvez minha maior referência hoje seria minha mãe na questão do acervo”, conclui.
Foto da capa: Manuela (@mazo_photography)
Por Cristiano Sales,
jornalista e escritor.

















