Quando se fala do maior entroncamento rodoviário do Norte-Nordeste, é impossível não lembrar do Anel de Contorno em Feira de Santana. Muito além de conectar o fluxo de carretas que vêm da BR-324, BR-116, BA-502 e da BA-503; a Avenida Eduardo Fróes da Motta esconde histórias e lendas urbanas por trás de uma das maiores construções do interior da Bahia, iniciadas ainda nos anos 50 e 60.
Uma rápida busca no Reddit e o real significado do Anel de Contorno pode surpreende o leitor. Há quem acredite que o responsável pelo desenho originário da planta era fã da franquia ‘Senhor dos Anéis’. Há quem acredite que o traço faz referência à série ‘Under The Dome’. Há também aqueles, mais pragmáticos, que acreditam que a planta faz alusão ao“quase” anel parisiense – da planta francesa concebida em 1800.

Foto: Reprodução/Google Maps

Foto: Reprodução/Google Maps
Apesar do mistério que ronda o surgimento do corredor logístico, fato é que os 24 km de extensão do Anel, hoje, é sinônimo de progresso e de desenvolvimento para o perímetro urbano que adentra, margeia e delimita um verdadeiro Contorno ao redor de Feira de Santana.
De acordo com o jornalista e crítico de cinema, Dimas Oliveira, que já atuou em periódicos como Tribuna da Bahia, ‘Gazeta Feirense’ e a ‘Folha do Estado’, o Anel de Contorno já foi palco de procissões evangélicas e curtas-metragens, em uma época que a movimentação rodoviária era menos intensa.

Foto: arquivo pessoal/Dimas Oliveira
“Há mais de 50 anos, não havia o intenso movimento que tem atualmente. Eu me lembro que, em 1973, Juraci Dórea e Everaldo Cerqueira realizaram o filme “Tapera”, curta-metragem em Super 8, com seis minutos de duração, inspirado no poema “Elegia do Solar Abandonado”, de Eurico Alves Boaventura. Eu apareço, logo no início, sendo atropelado por carro dirigido pela personagem interpretada por Maria do Rosário. A cena foi filmada no Anel de Contorno, tranquilamente, em um trecho próximo ao Portal do Sertão, na Santa Mônica”, relembra o jornalista e figura feirense.
O curta, que participou da III Jornada Nordestina de Curta Metragem, em Salvador, integra a memória coletiva da época e entrega um panorama dos primeiros anos do trecho rodoviário no canal ‘Memorial da Feira’, no Youtube (@MemorialdaFeira). Outro momento marcante, na lembrança do jornalista, é a caminhada de 22 km pela Igreja Batista Missionária Internacional, em prol das almas de Feira de Santana.
“Em meados da década de 2004, a Igreja Batista Missionária Internacional promoveu uma caminhada de seus membros voluntários por todo o Anel de Contorno, com paradas em pontos estratégicos dos 22 quilômetros. Os evangélicos caminharam em silêncio e em oração para que Deus abençoasse Feira de Santana”, recorda Dimas.
Palco de procissões, takes cinematográficos e de uma mística que toma conta do Anel, a verdade por trás das construções é explicada pelo professor e historiador (Mestre em História), Carl Lima. Segundo o feirense, o Anel de Contorno começa seu processo de planejamento e construção, entre as décadas de 50 e 60, enquanto buscava se consolidar como a segunda cidade mais importante da Bahia, levando em consideração os aspectos econômicos, a faixa populacional e os aspectos políticos da região.

Foto: arquivo pessoal/Carl Lima
“O Anel é pensado inicialmente para escoar a circulação, principalmente de transportes de cargas dentro do município, porque Feira já se consolidava (entre a década de 40 e 50) como esse grande entroncamento. Isso se deve ao fato de que, aqui em Feira de Santana, se passava as BRs principais que cortavam o Brasil – que atualmente são denominadas de BR-101 de BR-116 tanto o sul e o norte e a BR-324. Nesse sentido, qualquer tipo de movimentação que fosse feita de passagem pelo território, teria o anel de cotorno para escoar essa circulação, porém, imageticamente, o anel de cotorno passa a demonstrar tanto essa importância no setor de transporte estratégico do nordeste brasileiro, como também, energeticamente, a grandiosidade do crescimento e dos vetores de crescimento que Feira de Santana passa a entrecruzar”, explica o professor.
Esse movimento elevou o status de Feira de Santana, abandonando a ideia de “mais uma cidade interiorana” para a condição de metrópole. Na percepção do historiador, o Anel de Contorno trouxe um ‘poder simbólico’ para o fortalecimento e grandiosidade da Princesinha do Sertão, principalmente após movimentos como o Plano de Desenvolvimento Local Integrado (PDLI), o ‘Código de Urbanização’ durante o Plano Diretor e a chegada do Centro Industrial do Subaé – terceiro maior polo industrial da Bahia.
Feirense nascido na década de 80, diante de uma Feira de Santana mais moderna e consolidada, oriundo do bairro da Cidade Nova, Carl afirma que o Anel de Contorno tem capacidade infraestrutural, mas também ‘imagética’ no campo das mentalidades. “Todo esse movimento ajuda a Feira de Santana a difundir ideários de urbanização. Não é apenas uma questão econômica ou infraestrutural, como, por exemplo, abertura de avenidas ou a busca pelo crescimento da iluminação pública, mas também é uma feira de Santana que busca mudar seu comportamento. É o momento em que Feira constrói salas de cinema, espaços de sociabilidade como restaurantes, ou seja, tudo que se constituísse como algo novo, moderno, metropolitano, urbano”, conclui Carl.
Foto da capa: Izinaldo Barreto
Por – Cristiano Sales

















