A cena cultural e artística de Feira de Santana passa por uma renovação, impulsionada por sua força criativa — que utiliza a cidade como ponto de partida. Essa efervescência nas “artes visuais” ganha relevância ao se conectar com debates contemporâneos sobre representatividade, memória e o resgate das identidades que dialogam com o cotidiano e a diversidade do povo sertanejo.
Dentro desse panorama em transformação, o psicólogo, pintor autodidata e artista visual Igor Rodrigues tem consolidado sua pesquisa focada na perspectiva decolonial e na valorização das vivências negras. Sua trajetória combina a sensibilidade da escuta com o rigor plástico de suas criações, articulando elementos que aproximam o público de debates essenciais sobre afeto e autoestima.
“Eu tenho a arte como hobby desde a minha infância, onde eu criava imagens digitalmente no Photoshop. Em 2014, eu comecei a desenhar com lápis grafite e lápis de cor, e a pesquisar mais esses suportes. Após me formar em Psicologia, eu percebi que não queria seguir carreira na área, então pensei em me dedicar à carreira artística. Voltei a produzir os trabalhos digitais, mas com a intenção profissional. Considero que a virada de chave foi o processo terapêutico, pois durante as sessões de terapia que eu entendi que poderia trabalhar com arte e, também, que o meu processo artístico se fundamentaria em utilizar minhas próprias vivências, sentimentos e ideias para criar as minhas obras”, afirma o artista.




Fotos: Arquivo Pessoal
Com forte presença nas artes da região, o profissional construiu uma linguagem singular e autêntica, que projeta o nome do município no circuito cultural baiano ao ressignificar experiências humanas por meio da criação artística. A escolha por desenvolver uma poética visual pautada em referenciais teóricos sólidos fortalece a originalidade do trabalho, transformando sentimentos em narrativas visuais marcantes.
“Todas essas coisas fazem parte de um processo subjetivo. Cada pessoa constrói as suas percepções sobre dores, afetos e autoestima, através do contato consigo e com o outro. A minha pesquisa artística utiliza muito do referencial da Psicologia e de autores negros sobre questões que perpassam pela racialidade, pela subjetividade e por aspectos afetivos, mas eu procuro trazer as minhas próprias elaborações sobre esses conceitos, porque o meu trabalho funciona, para mim, como uma válvula de escape e possibilidade de elaborar minhas próprias questões. Então, eu acredito que o contato que as pessoas têm com os meus trabalhos faz com que elas consigam entender um pouco de mim, mas também traz provocações para que pensem sobre si mesmas. Cada trabalho é bastante singular e reflete um momento da minha vida e da minha carreira, então eu acho que todos, em algum ponto, representam uma ideia sobre o que eu estava sentindo”, ressalta o especialista.
Segundo Igor, o impacto das produções ultrapassa as barreiras estéticas e atinge diretamente a recepção do público, promovendo um canal de identificação e pertencimento. A capacidade de traduzir dilemas complexos em imagens sensíveis garante um envolvimento emocional profundo nos espaços onde suas peças são expostas; como observado nas telas “Chamego” ou “Eu sempre estive entre aspas”. Essa interação humana contínua valida a proposta de utilizar a ‘arte decolonial’ como meio de acolhimento e reflexão sobre a própria existência.




Fotos: Arquivo Pessoal
“Uma das grandes felicidades que tenho com o meu trabalho é poder presenciar a emoção que ele causa nas pessoas. Ao longo desses anos de carreira, tive contato com muitas pessoas que choraram, ficaram felizes, se sentiram representadas, intrigadas, curiosas, etc. e esse feedback é parte do que eu almejo alcançar com o que eu faço. Eu acredito que faz parte do processo que as obras ganhem vida e significado, também, a partir do olhar do outro. Espero que, a cada novo projeto, eu consiga continuar provocando isso nas pessoas”, acrescenta o profissional.
O crescimento dessa produção assinada por Rodrigues consolida a Princesinha do Sertão como um polo de novos pensamentos nas artes visuais, estimulando a formação de público e o fortalecimento da economia criativa local. “Espero que, a cada novo projeto, eu consiga continuar provocando isso nas pessoas, mantendo a essência do trabalho focada na conexão verdadeira e no impacto que a arte pode gerar na vida de quem a contempla. O caminho da pesquisa artística é contínuo e se alimenta justamente dessa troca com a sociedade, garantindo que a produção permaneça viva, pulsante e alinhada com as transformações e necessidades do nosso tempo”, conclui Igor.
Foto da capa: Renan Benedito
Por Cristiano Sales,
jornalista e escritor.

















