“Pra Lampião andar, Lucas da Feira precisou pavimentar o cangaço”; 177 anos do adeus ao mártir feirense

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp

Antes do “hall da fama” do agreste nordestino eternizar os nomes de Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião, e Maria Gomes de Oliveira, a tal da Maria Bonita, o cangaço ouvia falar de um nome (e dizem as más línguas ter chegado até os ouvidos de Dom Pedro II) que deixava “Robin Hood” no chinelo: a de Lucas Evangelista dos Santos, vulgo Lucas da Feira.

O que vou te contar a seguir não é um “spoiler”. Coincidentemente, Lucas da Feira foi enforcado em 1849 (alguns dizem 1848), justamente no que seria chamada de Praça Dom Pedro II — também conhecida como Praça do Nordestino, ou ex-Campo da Gameleira, localizado no Centro da Princesa do Sertão.

Mas como dizem por aí, “pra Lampião andar, Lucas da Feira precisou pavimentar o cangaço” nas redondezas ao norte de Feira de Santana. Para se ter uma noção, quando Lampião veio ao mundo, Lucas Evangelista dos Santos já havia sido executado há 48 anos.

Foto: Divulgação

O legado deixado pelo cangaceiro acabou transitando entre realidade e ficção, ao longo dos mais de 177 anos de sua execução no território feirense, completos neste último mês de setembro. Nos distritos extra-anel de CONTORNO, por exemplo, não era incomum ouvir histórias de tesouros enterrados pertencentes a Lucas da Feira, nas proximidades de Asa Branca e Pedra Ferrada. Ou de andanças pela Pedra do Descanso.

Isso porque, segundo conta a história, o mártir teria nascido em 18 de julho de 1807, na fazenda Saco do Limão, na freguesia de São José das Itapororocas — conhecido hoje como o distrito de Maria Quitéria. Filho dos cativos gêges Inácio e Maria, estima-se que por volta de 1828 o então escravo fugitivo teria descido as fronteiras da Vila de Feira de Sant’Ana. Daí o apelido “Lucas da Feira”.

Herói ou vilão? Depende. O “crime” de Lucas da Feira, na época, teria sido fugir do sistema escravocrata, seguido por furtos de roupas e de animais para a sua sobrevivência. Antes mesmo de Vidas Secas (1938), de Graciliano Barbosa, narrar um sertão inóspito, Lucas da Feira vivia na pele a dor e os grilhões da escravidão no agreste baiano, em meio ao requinte cangaceiro dos seus vinte anos de liberdade.

Fotos: Divulgação

A trajetória de Lucas da Feira continuou sendo objeto de interesse por grandes nomes em Feira de Santana, como o jornalista e historiador Hélder Alencar, além da historiadora Eliane de Jesus Costa, quem conduziu sua própria dissertação de mestrado sobre Lucas.

Na icônica publicação “LUCAS, O SALTEADOR: ecos de uma memória única na Feira de Santana de 1920” (2020), de Eliane, a historiadora cita que “Lucas da Feira foi uma das designações dada a Lucas Evangelista, homem negro escravizado, fugitivo, articulador de modos de sobrevivência, portanto, um sujeito racial”, escreveu. Você pode ler o artigo na íntegra, clicando aqui.

Embora as narrativas sobre Lucas (da Feira, o Evangelista ou do homem negro que fugiu do sistema escravocrata) tenham um apelo popular quase mítico nos dias de hoje, a trajetória do mesmo não teve um começo, e nem um final feliz. No fatídico dia 25 de setembro de 1849, Lucas Evangelista deu o seu último suspiro, ao ser enforcado em praça pública.

Seu corpo é sepultado na Igreja Matriz. Seu legado, no entanto, permeia o imaginário feirense através dos séculos, em uma Princesa Imperial que estava abandonando os velhos moldes para se tornar a Princesinha do Sertão, lar de histórias, de grandes nomes, de grandes mistérios e de personalidades como Lucas da Feira e de Maria Quitéria.

Foto: Divulgação

“Durante muito tempo, ouvimos narrativas superficiais sobre a Feira de Gado ou visões estigmatizadas sobre Lucas da Feira e Maria Quitéria. Lucas foi um homem escravizado cuja trajetória de resistência e banditismo precisa ser compreendida na sua verdadeira complexidade histórica“, destacou a jornalista Dandara Barreto em entrevista inédita ao Portal CONTORNO. Clique aqui para conferir.

Foto da capa: Divulgação

Por Cristiano Sales,
jornalista e escritor.

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp

Não perca nenhuma notícia importante. Inscreva-se na nossa newsletter.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *