Antes do “hall da fama” do agreste nordestino eternizar os nomes de Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião, e Maria Gomes de Oliveira, a tal da Maria Bonita, o cangaço ouvia falar de um nome (e dizem as más línguas ter chegado até os ouvidos de Dom Pedro II) que deixava “Robin Hood” no chinelo: a de Lucas Evangelista dos Santos, vulgo Lucas da Feira.
O que vou te contar a seguir não é um “spoiler”. Coincidentemente, Lucas da Feira foi enforcado em 1849 (alguns dizem 1848), justamente no que seria chamada de Praça Dom Pedro II — também conhecida como Praça do Nordestino, ou ex-Campo da Gameleira, localizado no Centro da Princesa do Sertão.
Mas como dizem por aí, “pra Lampião andar, Lucas da Feira precisou pavimentar o cangaço” nas redondezas ao norte de Feira de Santana. Para se ter uma noção, quando Lampião veio ao mundo, Lucas Evangelista dos Santos já havia sido executado há 48 anos.

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O legado deixado pelo cangaceiro acabou transitando entre realidade e ficção, ao longo dos mais de 177 anos de sua execução no território feirense, completos neste último mês de setembro. Nos distritos extra-anel de CONTORNO, por exemplo, não era incomum ouvir histórias de tesouros enterrados pertencentes a Lucas da Feira, nas proximidades de Asa Branca e Pedra Ferrada. Ou de andanças pela Pedra do Descanso.
Isso porque, segundo conta a história, o mártir teria nascido em 18 de julho de 1807, na fazenda Saco do Limão, na freguesia de São José das Itapororocas — conhecido hoje como o distrito de Maria Quitéria. Filho dos cativos gêges Inácio e Maria, estima-se que por volta de 1828 o então escravo fugitivo teria descido as fronteiras da Vila de Feira de Sant’Ana. Daí o apelido “Lucas da Feira”.
Herói ou vilão? Depende. O “crime” de Lucas da Feira, na época, teria sido fugir do sistema escravocrata, seguido por furtos de roupas e de animais para a sua sobrevivência. Antes mesmo de Vidas Secas (1938), de Graciliano Barbosa, narrar um sertão inóspito, Lucas da Feira vivia na pele a dor e os grilhões da escravidão no agreste baiano, em meio ao requinte cangaceiro dos seus vinte anos de liberdade.


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A trajetória de Lucas da Feira continuou sendo objeto de interesse por grandes nomes em Feira de Santana, como o jornalista e historiador Hélder Alencar, além da historiadora Eliane de Jesus Costa, quem conduziu sua própria dissertação de mestrado sobre Lucas.
Na icônica publicação “LUCAS, O SALTEADOR: ecos de uma memória única na Feira de Santana de 1920” (2020), de Eliane, a historiadora cita que “Lucas da Feira foi uma das designações dada a Lucas Evangelista, homem negro escravizado, fugitivo, articulador de modos de sobrevivência, portanto, um sujeito racial”, escreveu. Você pode ler o artigo na íntegra, clicando aqui.
Embora as narrativas sobre Lucas (da Feira, o Evangelista ou do homem negro que fugiu do sistema escravocrata) tenham um apelo popular quase mítico nos dias de hoje, a trajetória do mesmo não teve um começo, e nem um final feliz. No fatídico dia 25 de setembro de 1849, Lucas Evangelista deu o seu último suspiro, ao ser enforcado em praça pública.
Seu corpo é sepultado na Igreja Matriz. Seu legado, no entanto, permeia o imaginário feirense através dos séculos, em uma Princesa Imperial que estava abandonando os velhos moldes para se tornar a Princesinha do Sertão, lar de histórias, de grandes nomes, de grandes mistérios e de personalidades como Lucas da Feira e de Maria Quitéria.

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“Durante muito tempo, ouvimos narrativas superficiais sobre a Feira de Gado ou visões estigmatizadas sobre Lucas da Feira e Maria Quitéria. Lucas foi um homem escravizado cuja trajetória de resistência e banditismo precisa ser compreendida na sua verdadeira complexidade histórica“, destacou a jornalista Dandara Barreto em entrevista inédita ao Portal CONTORNO. Clique aqui para conferir.
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Por Cristiano Sales,
jornalista e escritor.

















