Luiz Gonzaga e Dulce dos Pobres: nomes que você não imaginava com o título de Cidadão Feirense

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Você sabia que o primeiro homenageado ao receber o título de “Cidadão Feirense” foi um padre? Pode não parecer nos dias de hoje, mas a distinção, ali por volta da IV Legislatura (entre os anos de 1959 e 1962), era considerada “o evento” da Princesinha do Sertão.

Imagine a cena: o legislativo ainda funcionava no prédio da Prefeitura, recebendo não apenas os vereadores e o distinto da ocasião, como também todo o povo e uma “senhora” filarmônica, ao som do icônico Hino à Feira, composição de Georgina Erismann.

Conforme conta a história, o primeiro “Cidadão Feirense” — distinção elaborada para laurear pessoas que prestaram serviços à cidade, mas que não eram naturais da Princesa — foi entregue ao Padre Mário Bahiense Pessoa da Silva, homem de fé e ação que marcou a comunidade católica e a educação da cidade nos anos 1950.

Foto: Acervo Robério Santos e Divulgação

Um ano após a morte do Monsenhor Mário Bahiense, em 1979, a câmara instituiu a “Comenda Maria Quitéria”, distinção que poderia ser recebida, inclusive, por quem nasceu na cidade. Antes da Comenda e da Medalha Zumbi dos Palmares chegarem para dividir as atenções, o Título de Cidadão Feirense reinava sozinho no plenário. Ele era a cartada principal da Casa da Cidadania para adotar, de papel passado, quem veio de longe e resolveu criar raízes no coração do sertão baiano.

Com o passar dos anos e a cidade crescendo a passos largos, o pessoal da Câmara percebeu que precisava organizar a casa e definir os critérios. E quais as diferenças? Bem, o Título de Cidadão Feirense continuou como aquele papel de “certidão de nascimento afetiva”, exclusivo para quem não nasceu em Feira. É o abraço oficial da Princesinha a quem veio de fora para gerar empregos, educar e construir a vida no município.

Foto: Divulgação

Já a Comenda Maria Quitéria veio para saudar o mérito de quem faz a diferença, levando o nome da heroína da Independência, premiando os grandes serviços prestados tanto pela prata da casa quanto por quem veio de fora. Para fechar o trio de honrarias, a Medalha Zumbi dos Palmares chegou para garantir que a resistência e a reparação histórica tivessem espaço de sobra no plenário, como tributo máximo a quem luta contra o racismo e mantém viva a cultura afro na terra de Lucas da Feira.

E se engana quem pensa que por lá só passa discurso engomado! O arquivo da Câmara guarda momentos históricos com os mestres da nossa música, como o Rei do Baião, Luiz Gonzaga, que recebeu o título de cidadão em 1984 após enaltecer o calor e a energia do Sertão em suas andanças. Ao procurar pelas faixas, quem é de Feira pode se deparar com uma singela homenagem do artista à Princesinha do Sertão: a faixa “Feira do Gado”.

“Mundo novo Adeus. Adeus minha amada. Eu vou pra feira de Sant’ana. Eu vou vender minha boiada. Ê boiada, ê boiadão”, canta Gonzagão.

Foto: Divulgação

A fé e a caridade também já fizeram o plenário emocionar o público. Santa Dulce dos Pobres teve sua marca inconfundível eternizada por Feira de Santana em 1985, reconhecendo o apoio que suas obras sociais sempre prestaram às famílias mais necessitadas da região.

Até a música já pediu passagem na Casa da Cidadania. Grandes nomes da música brasileira como Lazinho do Olodum e Thiago Aquino já foram condecorados com a Comenda Maria Quitéria, mostrando que a poesia e a cultura baiana têm endereço certo no interior.

Na comunicação, a voz do rádio também entrou para a história da honraria. O radialista Dilton Coutinho, fundador do programa Acorda Cidade, já foi agraciado com a Comenda Maria Quitéria. Mais recentemente, o jornalista Claudemiro do Nascimento Moreira, conhecido como Miro Nascimento, também foi escolhido para receber a distinção, em reconhecimento à sua trajetória de mais de duas décadas na comunicação de Feira de Santana.

Na área da saúde, profissionais que contribuíram para a medicina e para a formação de novas gerações também aparecem entre os homenageados. Entre os nomes comprovados nos registros da Câmara estão o médico José Rosa Figueirêdo Filho, professor da Universidade Estadual de Feira de Santana, e o médico Artur Grinfeld, especialista em otorrinolaringologia e cirurgia plástica facial. Ambos foram reconhecidos por suas trajetórias profissionais e pela contribuição à saúde da população feirense.

Foto: Divulgação

A força da cultura popular e do movimento negro garantiu saudações emocionantes nas sessões solenes. Lideranças de garra, a exemplo de Lurdes Santana, mostram a potência da resistência afro-feirense na galeria de honra. Os empresários e comerciantes que fazem a economia girar no comércio local completam esse mosaico. Homens de negócios que ajudaram a erguer o império comercial da cidade, como Mário Paim, também garantiram suas medalhas na história.

Confira abaixo a lista com personalidades homenageadas pelo legislativo feirense:

Título de Cidadão Feirense

  • Padre Mário Bahiense Pessoa da Silva (1959);
  • Luiz Gonzaga (1984);
  • Santa Dulce dos Pobres (1985);
  • Pastor José de Arimateia (2002);
  • Luiz Inácio Lula da Silva (2010);
  • Baio do Acordeon (2023);
  • Jau (Jauperi) (2023);
  • Silvério Silva (radialista) (2023);
  • Mário Paim (2026);
  • Dr. Octávio Guarçoni (2026);

Comenda Maria Quitéria

  • Wilson da Costa Falcão (1998);
  • Carlos Geilson (1998);
  • Maria do Socorro Pitombo (2008);
  • Joselito Amorim (2011);
  • Aretuza Pereira dos Santos (2022);
  • Thiago Aquino (2023);
  • Lazinho do Olodum (2026);

Medalha Zumbi dos Palmares

  • Felipe da Silva Freitas (2023);
  • Dom Zanoni Demettino Castro (2025);
  • Val Conceição (2025);
  • Maria de Lourdes Souza Santana (2025);
  • Edy Bonrhausen (2025);

Foto da capa: Divulgação

Por Cristiano Sales,
jornalista e escritor.

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