Anos antes de o ecossistema digital redesenhar o jornalismo na Bahia, Feira de Santana já pulsava como um caldeirão de vozes, comércio e efervescência cultural. A vocação para contar histórias adentrou a Princesa do Sertão no calor das feiras livres da Marechal Deodoro, ganhou vida nos palcos do Centro de Cultura Amélio Amorim e se consolidou nos microfones das grandes emissoras de rádio — uma relação afetiva que sempre teve a cidade e sua gente no centro do espetáculo.
Desde o agito das feiras aos bastidores das redações, o município acompanhou a ascensão de comunicadores de forte apelo popular. De passagens marcantes pela TV Subaé ao comando do Jornal da Manhã na Jovem Pan e do Transnotícias na Transbrasil, a imprensa feirense viu surgir o talento de Dandara Barreto. Sua firmeza nas pautas comunitárias e sua opinião contundente logo renderam um apelido carinhoso nos bastidores: a “Jéssica Senra de Feira de Santana”.
Entretanto, uma nova página passou a ser escrita na imprensa local com o fortalecimento das mídias independentes. Editora do portal Feirenses, ao lado de Danillo Ferreira, Dandara surge como uma das personalidades que inspiram outras mulheres a escreverem, com maestria e protagonismo, suas próprias histórias dentro do âmbito profissional e familiar.


Fotos: Arquivo Pessoal e Bartira Comunicação Criativa
Com mais de uma década dedicada à comunicação, com os louros de “melhor âncora de rádio de Feira de Santana” — sendo a primeira mulher em 22 anos a receber o título — a jornalista recorda que seu espaço na imprensa foi conquistado com coragem, estudo e pela constante recusa em aceitar moldes impostos.
“Sou mulher, mãe, feminista. Eu sou uma mulher inquieta, que sou movida pelas indignações que o mundo nos impõe e eu acho que é da inquietude, de fato, que surgem as grandes mudanças. Sou muito realizada na minha profissão, na minha maternidade, sobretudo porque tudo que eu faço partiu de escolhas. Eu não caí de paraquedas em nada, eu escolhi fazer tudo que eu faço, eu escolhi estar onde eu estou, então isso é muito bacana, isso é muito maravilhoso, é algo que nós mulheres nunca podemos abrir mão. Estamos em um ano eleitoral e tem aí uma galera falando sobre repensar o voto feminino. Isso é um grande absurdo. Nós não podemos retroceder em nada, dar nem um passo sequer para trás nos direitos que adquirimos, porque tem muito sangue, suor e lágrima de mulheres que vieram antes”, comenta.
Dona de um olhar atento à história local, a editora enxerga no ambiente digital a oportunidade ideal para desconstruir velhos clichês sobre o município, propondo um resgate afetuoso e sem rasuras ou superficialidade das memórias feirenses. Segundo a profissional, seu desejo é que cada vez mais mulheres tenham voz, mas que não se trata de uma competição. É possível escrever a história juntas, e mergulhar cada vez mais fundo nas histórias que permeiam a cidade.
“O mercado de comunicação tem crescido muito, o digital é o grande responsável por isso. Ao passo que a gente tem muitas pessoas exercendo a comunicação sem tanta responsabilidade (e esse é um lado negativo do digital), a gente também tem muita gente boa fazendo muita coisa bacana, conquistando seu espaço, ganhando seu dinheiro; de não estar refém ali, muitas vezes, de editoriais mais engessados, podendo exercer essa liberdade. O propósito do Feirenses nasce exatamente dessa liberdade: queremos mergulhar fundo nas histórias da nossa cidade e contar o que sempre foi negado aos próprios feirenses. A gente sempre ouviu as mesmas histórias de maneira muito superficialzinha. Feira de Santana nasceu na Feira de Gado, Domingo Barbosa de Araújo, aí teve Maria Quitéria, nossa heroína da Independência, aí tem Lucas da Feira, aquele bandido salteador. Feira é terra de Lucas, é terra de ladrão, porque Lucas da Feira amaldiçoou a cidade. Puxa, não é só isso. Lucas da Feira não é só essa figura, é uma figura muito mais complexa. Um homem escravizado, que para poder fugir dos grilhões, teve que fugir. E o banditismo, não que seja uma atitude justificada, mas era um dos caminhos por onde ele teve que percorrer para fugir dos grilhões, da escravidão. Maria Quitéria, aquela heroína, tem uma história muito mais complexa e acabou morrendo esquecida. Morreu em total anonimato, pobre. O que a gente sabe mais sobre isso? Domingos Barbosa de Araújo e Ana Brandô chegaram aqui em meio aos vaqueiros, mas já havia os paiaiás (ou Payayá), já havia os indígenas paiaiás, os nossos povos originários, então tem muito mais história para contar por feira. Então é justamente sobre mergulhar“, reflete.

Fotos: Arquivo Pessoal
Sem medo de desafiar antigas convenções, Dandara destaca que o Feirenses foi idealizado para criar identificação direta com o público e devolver o orgulho de pertencer à terra da Micareta e de Maria Quitéria. Com o desafio de inspirar novas gerações, a jornalista relembra os esforços de quem desbravou um terreno quando a comunicação em Feira ainda era árida para as mulheres na cidade.
“É muito gratificante inspirar novas gerações. É muito bacana, porque muitas outras mulheres me inspiraram. E o jornalismo, sobretudo em Feira de Santana, sempre foi uma terra muito árida quando a gente fala de jornalismo feminino. Nós sempre tivemos Madalena Braga, Leti Simões ali com a carinha na tela. Nós tivemos mulheres no rádio de feira, no jornal impresso, mas pouco vistas. Realizando esse jornalismo de protagonismo, sobretudo no rádio, sempre isso aconteceu de maneira muito tímida. E eu tenho consciência que eu não encontrei nada pronto. Se eu pude exercer esse papel com tanta liberdade, com tanta ousadia, foi porque outras mulheres semearam, prepararam um terreno para que eu pudesse passar. E saber que eu também estou ali preparando um terreno para gerações futuras me enche de orgulho. Perceber que as que vieram antes de mim me possibilitaram e que as que virão depois de mim estão encontrando algo trilhado, algo semeado por mim, é motivo de muito orgulho”, destaca.
Com raízes presas no Centro de Cultura Amélio Amorim — onde a mãe trabalhava, o pai iluminava os espetáculos e a tia dirigia —, a comunicadora carrega na bagagem a fusão perfeita entre a sensibilidade artística e a paixão visceral pela política.


Foto: Autêntica Fotografia/Fátima Santos
“Eu sou cria do rádio, o rádio é versatilidade mesmo. Então a gente está ali num programa de rádio, eu estive 10 anos à frente, de dois programas importantes de rádio, de Feira de Santana, o Jornal da Manhã da Jovem Pan e o Transnotícias, na Rádio Transbrasil. E é como se fosse uma revista eletrônica, realmente. Então a gente passeia por vários editoriais. Estar sempre informada é o segredo. Eu gosto muito de estar passeando por esses campos todos. Eu sempre fui essa jornalista muito curiosa, completamente apaixonada por política. Vim para a cultura, me dediquei à cultura, porque a cultura é o grande berço da minha vida. A minha família é totalmente envolvida com cultura. Eu fui criada dentro do Centro de Cultura Amélio Amorim, porque a minha mãe trabalhava no teatro, meu pai era iluminador, e a minha tia e madrinha eram as diretoras do espaço. Então eu fiz todas as oficinas que você pensar de dança, de teatro. E eu estava ali como o teatro era a rede de apoio dos meus pais para me criar. Então a cultura é minha, é algo que está correndo nas minhas veias. A política é algo que eu entendo como necessário para eu me entender no mundo, para eu estar no mundo. Viver é um ato político. Então, para eu estar no mundo, eu preciso consumir política, eu preciso entender quais são os rumos do meu país e é algo que eu sou muito apaixonada”, relembra.
Com o olhar no futuro do jornalismo no interior baiano, a ex-apresentadora reafirma seu amor pela Princesa do Sertão e lembra como o rádio lhe deu régua e compasso para exercer um perfil combativo em favor da população.
“Eu sempre fui uma pessoa de muita opinião, de opinião muito firme. Eu comecei a minha trajetória no jornalismo na redação da TV Subaé. E como eu sempre tive um olhar muito para a justiça social, para o que está errado, eu sempre gostei de tentar corrigir. Na TV não havia tanta liberdade para isso, por conta do tempo, do jornal e etc. Quando eu fui para o rádio, eu comecei a exercer um pouco mais essa coisa da liberdade de pauta, de poder trazer aquilo e conhecer mais de perto o jornalismo comunitário. Os ouvintes levavam para mim, para o rádio no caso, o problema e eu ia em busca de solucioná-los. E a gente costuma dizer que o rádio é uma cachaça, sabe? Vicia a gente, a gente quer fazer cada vez mais. Então, eu acho que o ponto de virada foi, de fato, o rádio. O rádio me deu régua e compasso e liberdade acima de tudo. Porque a gente precisa ter liberdade. Não que a TV não dê liberdade, mas são configurações muito diferentes. Então, para mim, foi quando eu entendi que no rádio eu podia fazer a vontade do ouvinte, levar adiante, levar para uma autoridade o problema daquela comunidade e quando eu conseguia voltar com a solução, eu me sentia muito empoderada. Não que eu tivesse esse poder de resolver, mas eu percebi que o altruísmo do jornalismo, de conseguir ir em busca de solução. E de questionar quando a solução não vinha. Aí eu acho que entra uma grande característica minha, que é o perfil mais combativo”, conclui.
Foto da capa: Reprodução
Por Cristiano Sales,
jornalista e escritor.

















