Em fevereiro de 2006, o interior da Bahia — mais especificamente a região de Feira de Santana — era palco de uma dessas histórias que parecem ter saído do cinema. A atuação do grupo feminino “Cegonhas da Noite” chamava a atenção da imprensa regional pelo que parecia ser a última dança: “Bebês eram entregues em domicílio”, destacou entrevista do jornal A TARDE, na mesma época.

Foto: Reprodução
Mas vamos voltar no tempo. Entre as décadas de 1980 e 2000, não era incomum (segundo a banda toca) um bebê aparecer em sua porta, em uma caixa de papelão, acompanhado de um bilhetinho escrito. Embora não existam números oficiais, as estimativas mais aceitas são de que entre 1,1 mil e 2 mil recém-nascidos em situação de vulnerabilidade possam ter sido redistribuídos por uma rede de operações secreta na cidade.
No entanto, é preciso entender o contexto de urbanização e industrialização que atravessava a Princesa do Sertão. Com a implantação do Centro Industrial Subaé (CIS), próximo à região do Tomba, e o forte senso de progresso ao redor da cidade, estima-se que dos Anos 60 até a década de 90, o município tenha saltado de 141 mil para 405 mil habitantes.


Foto: Carlos Augusto e Reprodução
A instalação do terceiro maior polo industrial da Bahia seria um convite para novas famílias morarem na região extra-anel de CONTORNO, o que também impulsionou os burburinhos de bebês recém-nascidos entregues pelas Cegonhas da Noite; com relatos que permeiam as comunidades do bairro Parque Ipê e moradores de classe média da região.
Logo em 1991, acompanhando o crescimento feirense como a “maior cidade do interior da Bahia“, as Cegonhas da Noite teriam sido alvo de repercussão nacional, após matéria do Fantástico. Confira a reportagem na íntegra clicando aqui.
Trinta anos mais tarde, personalidades feirenses surgiram com depoimentos reais da ação das Cegonhas, à exemplo da analista administrativa Lausanne Vicentin (@lausannevicentin) e da massoterapeuta Ana Cláudia Rolim (@massoterapeuta_anaclaudiars) — que depuseram nas redes acerca da ação do grupo.

Foto: Reprodução
Embora o processo de endereçar os recém-nascidos às famílias de classe média e alta, na época, tenha sido visto com bons olhos pela população, a ausência de legalidade no trâmite do grupo seria também uma das teorias mais aceitas do seu fim.
Quase meio século após a atuação do grupo em Feira de Santana, a identidade das quatro mulheres que supostamente comandavam o Cegonhas da Noite permanece como um mistério da noite feirense nos Anos 80. Nas redes sociais, comentários entrelaçam mistério, mística e depoimentos reais de uma Princesa do Sertão que ainda estava com o seu horizonte em processo de construção.
Entre ficção e realidade, fato é que a atuação do Cegonhas da Noite entrou para os anais da história da cidade, sendo um daqueles relatos que estão engavetados na categoria: “coisas que só se vê em Feira de Santana”.
Foto da capa: Divulgação
Por Cristiano Sales,
jornalista e escritor.

















