Do Reisado aos murais de street art: Feira de Santana mostra que o folclore pode se reinventar sem perder suas raízes

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A cultura popular de Feira de Santana pisou no acelerador. Esqueça a ideia de que folclore é peça estática de museu: nas ruas da Princesinha do Sertão, a tradição virou matéria-prima para o grafite, a música urbana, o quadrinho e a moda autoral. Neste sábado, 22, Dia do Folclore, a cena cultural feirense mostra que as histórias do sertão ganharam roupagem pop, ritmo veloz e presença digital.

A vocação para o movimento vem de berço. No século XVIII, a cidade que nasceu no entreposto da antiga Fazenda Santana dos Olhos D’Água, onde tropeiros e vaqueiros cruzavam caminhos, trocavam mercadorias e espalhavam causos ao redor do fogo. A poeira da estrada moldou o uso do couro e os aboios que viraram marca registrada da região.

Nas comunidades feirenses, essa herança bate forte e rápido. No distrito de São Vicente, o bicentenário Reisado de Tiquaruçu coloca nas ruas seus “caretas” mascarados e fardamentos coloridos em um folguedo que cruza gerações. Já no Quilombo Matinha dos Pretos, por exemplo, o Samba de Roda comanda a pisada firme da chula e do prato-e-faca.

Foto: Washington Nery

Esse imaginário popular também é povoado por narrativas misteriosas que atravessam gerações nas calçadas do município. Entre as mitologias mais vivas estão a lenda de que “Helena do Bode vai lhe pegar” ou relatos da Lagoa de Berreca, marcada por histórias de visagens e vozes que emergiam das águas. Outro caso clássico que ganhou o imaginário urbano é a lenda do Bicho do Tomba, narrativa que movimentou a cidade nos anos 1940 e 1960, misturando medo e fascínio populares.

Foto: Ísis Moraes

Essa capacidade de reinventar lendas populares não é de hoje. Embora o Brasil tenha no Saci-Pererê, no Curupira e na Iara alguns dos seus personagens mais conhecidos, a tradição de transformar histórias e figuras do imaginário popular em novas narrativas continua viva. Em Feira de Santana, essa mesma ousadia ganha novos contornos ao transformar a heroína Maria Quitéria e outras lendas locais em personagens de graphic novels e em gigantescos murais de street art espalhados pelas avenidas centrais.

Fotos: acervo do CUCA

Reinventar o folclore não significa deixar o passado para trás, mas encontrar novas formas de mantê-lo vivo no presente. Na Princesinha do Sertão, lendas, personagens, ritmos e tradições atravessam gerações e ganham espaço em diferentes linguagens, das ruas aos quadrinhos, da música à moda. A cidade segue transformando sua cultura popular sem perder suas raízes, mostrando que tradição também pode se renovar e continuar contando a história de um povo.

Foto da capa: Washington Nery, Ísis Moraes e acervo CUCA

Por Cristiano Sales,
jornalista e escritor.

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