Gil Mário e Matheus ‘Chão de Palha’ conquistam colecionadores de arte no Brasil; feirenses ampliam o mercado

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Dos ateliês feirenses a acervos particulares em diferentes regiões do país, a produção artística em Feira de Santana ultrapassou as fronteiras do município. De um lado, colecionadores e instituições buscam obras que carregam história, técnica e a identidade visual; de outro, os lares descobrem no artesanato autoral novas formas de dar personalidade aos espaços. Essa “ponte” entre as Belas Artes com colecionadores de todo o Brasil, vem através da cena local, em contato com artistas plásticos como Gil Mário e o artesão Matheus Chão de Palha.

Com quase cinco décadas de dedicação às artes visuais, o artista plástico Gil Mário é um dos grandes expoentes dessa projeção. Seu percurso no mercado começou de forma fluida, impulsionado pela constante investigação estética. “Nunca comecei com objetivos profissionais; a arte era, antes de tudo, um hobby prazeroso. Iniciei pelo desenho e, mais tarde, aventurei-me na pintura a óleo sobre tela. Desde o princípio, busquei explorar texturas e volumes por meio das pinceladas. Minha maior motivação sempre foi a busca pelo inédito e pelo novo, aspecto frequentemente destacado pela literatura especializada. Ao longo do percurso, experimentei diferentes possibilidades, como a colagem, incorporando diversos materiais e expandindo os limites da tela tradicional. Hoje, diante da enorme variedade de recursos disponíveis, o desafio é adaptar-se continuamente às novas possibilidades.”, compartilha.

Foto: Arquivo Pessoal

Ao longo dos anos, Gil Mário participou de exposições em galerias de destaque, realizando mostras individuais em espaços como a Noguerol Galeria de Arte, O Cavalete, Ada Galeria de Arte, Atrivm Galeria de Arte, Prova do Artista e NR Galeria de Arte. O artista também levou seu trabalho para a Caixa Cultural em Salvador e em São Paulo, a Galeria Jenner Augusto em Aracaju, o Museu Caetano Veloso em Santo Amaro da Purificação, o Museu Hansen Bahia em Cachoeira e o Museu de Arte Contemporânea em Feira de Santana, onde comemorou seus 40 anos de artes visuais.

Fotos: Arquivo Pessoal

Essa ampla projeção garantiu que suas obras conquistassem espaços de prestígio em museus, galerias e praças públicas. “Ao longo desses anos, participei de exposições em importantes galerias da capital baiana (…) Tenho obras em coleções particulares, em museus de Salvador e em instituições de outros estados. Entre minhas esculturas, destaco as instaladas em espaços públicos como o “Monumento ao Motorista Caminhoneiro”, na Praça Jackson do Amaury, “Homenagem a Georgina Erismann”, em frente ao Boulevard Shopping, além das instaladas em lugares particulares nos jardins do Palácio de Buckingham, no Edifício Maison Parc de France, entre outras. Minhas obras também ilustraram diversos livros publicados e minha arte já foi tema de pós-graduação”, destaca.

Formado em Educação Física pela Universidade Federal de Pernambuco e em Artes Plásticas pela Universidade Federal da Bahia, Gil Mário (@gilmarioartistaplastico) foi diretor do Museu Regional de Arte, assessor cultural do CUCA e, atualmente, mantém seu ateliê no bairro Santa Mônica.

Fotos: Arquivo Pessoal

Enquanto a pintura e a escultura monumental ocupam galerias e acervos privados, o artesanato autoral e o design criam pontes diretas entre a cultura popular e a decoração de interiores contemporânea. É nesse cenário que surge a figura de Matheus ‘Chão de Palha’ (@chaodepalha). Sua aproximação com o fazer manual começou na marcenaria familiar e ganhou forma com o desenvolvimento de peças decorativas autorais.

Foto: Hortência Sant’Ana

“O trabalho artístico como artesão começa por Influência da família, o tio Luciano teve papel importante pois trabalhou com marcenaria e repassou muitos aprendizados. A Chão de Palha nasceu inicialmente como uma loja de móveis de pequeno porte e itens decorativos, movido também pelo interesse pela área de arquitetura e por, na época, realizar graduação de engenharia civil, e aos poucos a pintura foi tomado conta dessas peças, hoje se torna parte também da minha identidade como artista, o contato com a marcenaria, o envolvimento com espaços culturais e projetos sociais locais, experimentando a pintura sobre madeira e desdobramentos em cenários, arte-educação, exposições e participação em festivais de artesanato”, relata.

O processo criativo de Matheus se alimenta da vivência cotidiana na cidade, utilizando o reaproveitamento de madeiras do Centro de Abastecimento e referências do Portal do Sertão. “Me inspiro na cultura popular, nos sambadores, nos forrozeiros, na literatura de cordel, nos vaqueiros, nas festas populares da cidade e nas tradições locais. Valorizo demais a história de Feira de Santana e um dos meus propósitos enquanto artista é pensar formas, por meio da arte, de manter as tradições e saberes que a cultura popular da região mobiliza e guarda”, recorda.

Fotos: Arquivo Pessoal/Ana Reis

Na visão do artista, o artesanato ainda ocupa muito o lugar da rua, das feiras, rodeado por questões sociais que atravessam a produção e comercialização de artesanato na Bahia. “Há muito para ser feito em movimento de valorização dos artesãos e de seus trabalhos”. No entanto, apesar dos desafios,as peças artísticas criadas pelas mãos do artesão já alcançaram muitos estados brasileiros, desde o sul ao norte do país. “Isso me deixa muito contente porém ainda existem muitos territórios que gostaria de alcançar com o que produzo. O artesanato que faço, é construído com minhas mãos e meu suor, logo, o resultado final também é parte de mim e do meu corpo, desta forma, quando uma peça minha atravessa o país, eu atravesso junto, meu corpo se torna nesse processo um corpo descentralizado, que transita junto com a arte que produzo”, comenta.

Fotos: Hortência Sant’Ana/Arquivo Pessoal

Segundo Matheus, hoje o objetivo é trabalhar para que suas produções alcancem sempre novos públicos, permitindo que artesãos possam se sustentar com a própria arte sem deixar que as técnicas morram. “Hoje faço um trabalho de arte-educação, paralelo a esta produção comercial de peças, num programa do Governo do Estado da Bahia, chamado “Corra pro Abraço”, gerenciado pela SEADES e SUPRAD, estou como arte-educador e realizo oficinas artísticas com pessoas em situação de rua e em vulnerabilidade social, usando a metodologia de redução de danos e combate à violência. A arte é na minha vivência, uma ferramenta de transformação social, visto que mobiliza saberes e incita o cuidado, e também é uma forma de escrevivência, visto que por meio do artesanato é possível falar sobre si mesmo e contar as próprias histórias”, celebra.

Foto da capa: Arquivo Pessoal (Gil Mário) e Ana Reis (Matheus Chão de Palha)

Por Cristiano Sales,
jornalista e escritor.

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