Há artistas que carregam sua cidade no nome. Outros, na memória. Rachel Reis (@rachelreisc) escolheu levá-la na música. Em cada composição, a cantora e compositora feirense mistura referências que atravessam gerações — do afrobeat ao reggae, do arrocha ao pagodão, da MPB ao pop contemporâneo — construindo uma identidade que hoje faz dela um dos principais expoentes da música brasileira.
O reconhecimento nacional veio acompanhado de mais de 800 mil ouvintes mensais no Spotify e duas indicações ao Grammy Latino. Mas a trajetória da ‘Sereiona‘ começou muito antes dos palcos do Feira Noise, Sangue Novo ou The Town, em uma Feira de Santana onde a música sempre ocupou um espaço de encontro entre diferentes culturas, tradições e sonoridades.

Foto: Divulgação
Filha de Maura Reis e neta de Honorina Reis, com o legado da sanfona e do violão deixado pelo avô, Rachel cresceu em uma Princesinha do Sertão eclética, marcada pela efervescência cultural dos bairros, das serestas, dos bares e das festas populares. Ainda criança, acompanhava as apresentações de seresta da mãe e passou a enxergar o canto como uma linguagem natural dentro de casa, fruto da liberdade estética que hoje marca suas composições.
“Venho de uma família de trabalhadoras da música, que perderam noites, engoliram silêncios e fizeram da voz não só beleza, mas ofício. para além da poesia, da magia e do suposto glamour, existe a lida diária de cantar como forma de manter a vida em pé”, afirmou a cantora no Instagram.


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Antes de viver exclusivamente da música, a feirense percorreu um caminho comum a muitos artistas independentes. Trabalhou como recepcionista de posto de saúde, atendente de telemarketing, tentou brechó e até ser designer, quando, aos 18 anos, começou as apresentações em bares, casamentos e pequenos eventos. A decisão de investir definitivamente na carreira veio acompanhada de uma odisseia até Pernambuco, após conversas com o produtor Barro, onde gravou duas faixas que inseririam, de forma definitiva, o nome de Rachel Reis na música brasileira.
“Entre bicos e trabalhos de tudo que aparecia, a música me puxou e nela venho tecendo, do meu jeito, meu espaço e sustento”, conta Rachel.

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Os primeiros lançamentos chegaram em 2020, com os singles “Ventilador” e “Sossego”, que começaram a circular entre o público da música independente. Pouco tempo depois, Rachel apresentou o EP Encosta (2021), projeto que ampliou sua visibilidade nacional e revelou uma artista pouco interessada em seguir fórmulas. Misturando ritmos populares baianos, elementos da música brasileira contemporânea e influências afro-caribenhas, a cantora passou a construir um repertório que escapava de qualquer classificação.
Foi também nesse período que surgiu “Maresia”, com Zamba e Cuper,feat. Fredinho o Louco, que lhe renderia a média de mais de um milhão de visualizações por ano no clipe do Youtube. A faixa conquistou espaço nas plataformas digitais, ganhou novos públicos e abriu definitivamente as portas para a cantora nos principais festivais do país.
Em 2022, Rachel lançou Meu Esquema, seu primeiro álbum de estúdio. O disco consolidou a identidade artística que vinha sendo desenhada desde os primeiros singles, reunindo canções como “Lovezinho”, “Brasa”, gravada ao lado de Céu, “Pelo” e “Motinha”. O trabalho foi amplamente elogiado pela crítica especializada justamente por transformar referências populares da Bahia em uma sonoridade contemporânea, sem abrir mão das origens.
O impacto do álbum ultrapassou o público. Em 2023, Meu Esquema recebeu indicação ao Grammy Latino na categoria de Melhor Álbum de Rock ou Música Alternativa em Língua Portuguesa. No mesmo ano, Rachel foi reconhecida como Artista Revelação pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), além de figurar entre as artistas indicadas aos principais prêmios da música brasileira. Anos mais tarde, o rosto da cantora estaria estampado internacionalmente na Times Square, em Nova York.
“Ver meu rosto na Times Square, representando a música da Bahia em um projeto global que já destacou tantas mulheres incríveis (EQUAL), é algo que ainda estou processando. Sou profundamente grata por cada passo dessa caminhada“, comentou a cantora na época.

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À medida que sua carreira crescia, as composições de Rachel também passaram a ocupar espaço nas produções audiovisuais. “Maresia” integrou a trilha sonora da novela Fuzuê (2023-2024), enquanto “Bateu”, parceria com Gilsons e Mulú, fez parte da novela Renascer (2024). Já “Caju” entrou para a série da Amazon, Cangaço Novo (2023), ampliando ainda mais o alcance de seu trabalho.
Em 2025, a cantora apresentou Divina Casca, seu segundo álbum de estúdio. O projeto aprofundou ainda mais sua pesquisa musical e reuniu participações de artistas como Psirico, BaianaSystem, Don L, Rincon Sapiência, e Nêssa, reafirmando Rachel como uma das vozes mais inventivas de sua geração. O disco voltou a colocar a artista entre os indicados ao Grammy Latino, desta vez na categoria de Melhor Álbum de Música Popular Brasileira.

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Apesar da agenda cada vez mais intensa e do reconhecimento nacional, Feira de Santana continua ocupando um papel central em sua trajetória. Essa conexão aparece em sua maneira de compor. Em vez de seguir uma única estética, Rachel transforma em música tudo aquilo que cresceu ouvindo: a seresta presente dentro de casa, o samba, o reggae, o arrocha, o pagodão, o axé e a musicalidade cotidiana das ruas feirenses. O resultado é uma obra que dialoga com diferentes públicos sem perder o vínculo com suas origens.
“Meu desejo pra minha carreira é nunca parar de sentir a música como meu ponto de partida. Que continue sendo onde eu me encontro, me sustento (literalmente) e me conecto com outras pessoas. Que eu consiga manter os meus pés no chão sem perder a doçura. Sinto que tudo pra mim acontece quando tem que ser”, conclui a cantora.
Foto de capa: Luan Martins
Por Cristiano Sales,
escritor e jornalista.















