Tradição centenária: saiba como o Bando Anunciador transita entre o ‘sagrado e o profano’ feirense

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Foto: Divulgação

Milhares de feirenses e foliões do estado da Bahia foram às ruas neste último domingo, 12, para o tradicional cortejo do Bando Anunciador. As marchinhas, charangas e fantasias tiveram início no Museu Regional de Arte do Cuca, cobrindo as ruas Conselheiro Franco, passando pela Praça Fróes da Motta, em direção a Praça do Nordestino, anunciando a quinzena da padroeira de Feira — Nossa Senhora Sant’Ana.

O encontro entre o sagrado e o profano leva, todos os anos, milhares de feirenses às ruas. Desde o início das tradições, que remontam ao século XIX, que o imaginário de Feira de Santana é tomado pela fé e pela cultura local, com direito a fantasias sertanejas de Lampião, cosplayers da cultura pop com Homem-Aranha e Michael Jackson, além de uma infinidade de outros personagens, que vão de princesas da Disney até a Família Flintstones.

Foto: Cau Preto

Celebrado tradicionalmente no mês de julho, o Bando Anunciador traz a alegria do samba e das marchinhas como uma “micareta” fora de época. Aberta ao público, estima-se que 50 mil foliões tenham percorrido o Centro de Feira de Santana com cores e cantigas populares, acompanhadas do bumbo e dos trompetes que ecoaram pela cidade.

No entanto, a festa como é conhecida nem sempre foi assim. Segundo o documento “Histórico do Bando Anunciador“, publicado pelo Centro Universitário de Cultura e Arte (CUCA), a origem do Bando está ligada à tradição católica de festejo da Senhora Sant’Ana, devido às raízes da colonização portuguesa. Ainda segundo a pesquisa, os desfiles passaram a ser registrados desde 1860, período em que a urbanização se alastrava pela cidade.

Como a comunicação era escassa, as celebrações da padroeira precisavam ser anunciadas ao povo, no estilo boca à boca. Nesse sentido, quase dois meses antes da festa de Nossa Senhora Sant’Ana, a tradição católica rompia as ruas em um ato de procissão.

Foto: Divulgação/PASCOM Arquidiocese de Feira

Após a entrada de elementos “profanos” na festa, o movimento católico decidiu extinguir a lavagem da igreja em 1987, sob as alegações de descaracterização do Bando Anunciador — embora o movimento já ocupasse as ruas há mais de um século. Se o movimento social, naquela época, não tinha impelido a permanência do Bando na cidade, o seu retorno como “celebração da cultura popular” ocorreria vinte anos depois, com aumento gradual no número de foliões.

Fotos: Arivaldo Publio

Graças à sua mobilização popular e importância histórico-cultural, o Bando Anunciador foi oficialmente inserido, em 2022, no calendário de festas populares de Feira de Santana, segundo a Lei nº 4.089, de 27 de junho de 2022, que determina sua realização anual no mês de julho. Diferentemente da sua essência no século XIX, o Bando recebeu uma nova roupagem no século XXI, transformando a cidade em uma manifestação da sua própria (e variada) cultura.

A tradição voltou a tomar conta das ruas, reafirmando que, em Feira de Santana, a história também se escreve ao som das charangas, da participação popular e do encontro entre os rios “sagrado” e “profano”.

Foto da capa: Divulgação

Por Cristiano Sales,
jornalista e escritor.

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