Feira de Santana tem uma trajetória que vai além da tradição comercial e de sua posição como um dos principais centros urbanos da Bahia. A cidade já mudou de nome, recebeu apelidos que atravessaram gerações e viu iniciativas pouco convencionais ganharem importância nacional. Documentos históricos e registros institucionais ajudam a recuperar cinco episódios menos conhecidos da vida feirense.
Feira de Santana já teve outro nome oficial
O nome Feira de Santana nem sempre apareceu nos documentos oficiais da maneira como é conhecido atualmente. Em 18 de setembro de 1873, quando a então vila foi elevada à categoria de cidade, ela recebeu a denominação de Cidade Comercial de Feira de Sant’Anna.
A escolha destacava a atividade econômica responsável pelo crescimento da localidade, especialmente a negociação de gado e a circulação de mercadorias entre o sertão e o Recôncavo.
O título comercial permaneceu associado ao município durante décadas. Só em 1938, o nome foi simplificado para Feira de Santana.
O apelido Princesa do Sertão é mais antigo do que muita gente imagina
Durante muito tempo, a origem do apelido Princesa do Sertão foi atribuída a Rui Barbosa, que visitou Feira de Santana em 25 de dezembro de 1919. Apesar da associação aparecer em diversos registros institucionais, pesquisas históricas identificaram o uso da expressão antes da passagem do jurista pela cidade.
Em março de 1916, a professora Marília Carneiro de Souza utilizou a expressão Princesa do Sertão durante um discurso na inauguração do Grupo Escolar J. J. Seabra, prédio que atualmente abriga o Centro Universitário de Cultura e Arte, o CUCA. A solenidade reuniu autoridades políticas, educadores e representantes da sociedade feirense, incluindo o governador J. J. Seabra.
A professora mencionou a cidade como Princesa do Sertão em duas passagens de sua fala, segundo um registro histórico publicado no jornal Folha do Norte. O discurso foi reproduzido no Diário Oficial da Bahia em 16 de março de 1916.
A curiosidade ganha outro capítulo com a pesquisa do historiador Fábio Santana Nunes. Em sua tese de doutorado, ele identificou que o jornal O Propulsor já chamava Feira de Santana de princesa do sertão em 2 de julho de 1899. Dois anos depois, em 1901, o mesmo periódico utilizou a expressão “a encantadora princesa do sertão da Bahia”.
Embora a criação do título seja atribuída à Rui Barbosa, pesquisas mostram que o jurista ajudou a perpetuar um título que já fazia parte do vocabulário local havia pelo menos duas décadas.
A Micareta nasceu porque a chuva atrapalhou o Carnaval
Uma das festas mais tradicionais de Feira de Santana surgiu de um imprevisto. Em 1937, as chuvas comprometeram a realização do Carnaval na cidade. Inconformado com o cancelamento, o coletor Manuel da Costa Ferreira, conhecido como Maneca da Coletoria, propôs transferir a comemoração para outra data.
A primeira edição começou em 27 de março de 1937. Curiosamente, a festa não nasceu com o nome Micareta. Inicialmente, foi chamada de Micareme, expressão de origem francesa relacionada a celebrações realizadas durante a Quaresma. O nome atual surgiu depois, escolhido por meio de um concurso.
A folia também tinha características bastante diferentes das atuais. Os carros alegóricos ocupavam lugar de destaque, e Eunira Boaventura foi escolhida como a primeira rainha. Somente em 1954 um trio elétrico participou da festa pela primeira vez.
Um telescópio dado de presente ajudou a criar um dos observatórios mais importantes do Brasil
Uma iniciativa que começou entre dois jovens interessados em astronomia colocou Feira de Santana no cenário científico brasileiro. No início da década de 1970, Carlos Bacelar ganhou um telescópio de sua mãe, Maria Edite Bacelar, após uma viagem a São Paulo. O equipamento despertou a curiosidade do vizinho Augusto César Pereira Orrico, que sugeriu a criação de um observatório astronômico na cidade.
A ideia mobilizou familiares, amigos e apoiadores. O professor César Orrico, pai de Augusto, participou das primeiras articulações políticas, que chegaram ao então governador Antônio Carlos Magalhães. O projeto também contou com a atuação de José Olympio Mascarenhas e do fotógrafo Antônio Ferreira Magalhães.
Inaugurado em 27 de setembro de 1971, o Observatório Astronômico Antares foi instalado no bairro Jardim Cruzeiro, em uma das áreas mais elevadas da cidade. A instituição chegou a ser considerada a segunda mais importante do país em sua área. Entre seus trabalhos estiveram publicações astronômicas e observações da passagem do cometa Halley, em 1986.
Em 28 de agosto de 1992, o observatório foi incorporado à Universidade Estadual de Feira de Santana, a UEFS.
Feira de Santana tem uma igreja mais antiga que a própria cidade
Muito antes de Feira de Santana conquistar sua autonomia administrativa, em 1833, a região já abrigava construções religiosas que permanecem como testemunhos do período colonial. Uma delas é a Igreja de São José das Itapororocas, localizada no atual distrito de Maria Quitéria.
Segundo registros históricos da Prefeitura Municipal, a construção da igreja é datada de 1657, quando a localidade ainda pertencia à cidade de Cachoeira. A paróquia foi confirmada em 9 de março de 1696, conforme documentação oficial.
A história do lugar está ligada à formação dos primeiros núcleos populacionais do território feirense. Em 2019, o professor e historiador Carlos Alberto Alves apresentou pesquisas indicando que o povoamento da região de São José das Itapororocas antecedeu em aproximadamente um século antes da ocupação associada à Fazenda Santana dos Olhos d’Água, tradicionalmente apontada como ponto de origem da cidade.
Ainda hoje, décadas depois, a antiga igreja permanece de pé no distrito que recebeu o nome de Maria Quitéria, em homenagem à heroína da Independência da Bahia, nascida naquela região.
Foto – Divulgação

















