Quem atravessa Feira de Santana diariamente talvez não perceba que o mapa da cidade funciona como um arquivo de sua formação. Nomes de endereços, pontos de ônibus e conversas cotidianas nasceram de árvores abundantes, antigas propriedades, atividades econômicas, personagens da literatura e instituições públicas. No aniversário da cidade, celebrado em 18 de setembro, revisitar essas origens é uma maneira de percorrer Feira por outros caminhos.
A própria Princesa do Sertão começou a se formar no século XVIII, no encontro de caminhos utilizados para o deslocamento de gado entre o sertão e Salvador. O que antes era vila, foi elevada à categoria de cidade em junho de 1873, quando recebeu a denominação Cidade Comercial de Feira de Santana. Depois de diferentes variações, o nome atual foi fixado somente em novembro de 1938.
O crescimento urbano deixou marcas nos bairros. Baraúnas, por exemplo, recebeu esse nome pela quantidade de árvores conhecidas como baraúna existentes na área. Já Brasília teve outra trajetória, a região era uma chácara da família do coronel Agostinho Froés da Mota, cercada por eucaliptos e inicialmente conhecida como Chácara de D. Lolô. Após o loteamento da propriedade, o bairro passou a homenagear Brasília, que estava em construção para se tornar a nova capital do país.
No Aviário, a explicação está diretamente ligada ao uso que aquela área teve no passado. Durante a gestão do governador Landulfo Alves, foi instalada em Feira uma estrutura destinada à experimentação e modernização agropecuária, incluindo um aviário modelo. O equipamento desapareceu, mas batizou a região.
Queimadinha também preservou no nome uma prática de outra Feira. Antes da chegada da iluminação elétrica, pequenas queimadas eram realizadas na área durante missas e festas. Já o Tomba carrega uma história que atravessou gerações. Segundo o relato tradicional, o nome teria surgido depois que vagões de um trem tombaram naquela região, entre Feira de Santana e São Gonçalo dos Campos. O episódio resultou na identificação de um dos bairros mais conhecidos da cidade.
Nem todos os nomes, porém, nasceram de acontecimentos. Alguns registram instituições que fizeram parte do desenvolvimento urbano. É o caso do Caseb. Na região próxima à atual Avenida João Durval funcionava um armazém da Companhia de Armazéns e Silos do Estado da Bahia, a CASEB, usado pelo Governo do Estado para armazenar produtos e auxiliar na regulação do abastecimento. A sigla atravessou o tempo e passou a identificar o bairro.
Os Capuchinhos revelam outra relação entre território e presença institucional. Os frades capuchinhos chegaram oficialmente a Feira de Santana em 1950. A atuação religiosa ganhou dimensão na educação e na comunicação. A presença ficou tão consolidada, que o nome da ordem passou a identificar o bairro.
Há ainda endereços cuja origem se mistura às narrativas populares. O Muchila é associado a uma história onde portugueses teriam enterrado mochilas com ouro na área, por volta de 1700, durante uma fuga dos holandeses. No Sobradinho, a referência teria sido uma pequena construção existente na localidade, ocupada anteriormente por padres jesuítas e cercada, com o passar dos anos, por histórias de assombração.
A cultura brasileira também entrou no mapa feirense. O bairro Gabriela recebeu o nome inspirado na personagem criada pelo escritor baiano Jorge Amado. A referência literária avançou pelas ruas da região, onde títulos de novelas como Irmãos Coragem, O Bem Amado e Uma Rosa com Amor foram utilizados. Na Cidade Nova, outra paixão nacional orientou os endereços: ruas receberam nomes de jogadores da Seleção Brasileira campeã mundial em 1970, entre eles Pelé, Jairzinho, Rivelino, Tostão, Carlos Alberto, Brito, Clodoaldo e Gérson.
Até nomes aparentemente simples guardam informações sobre uma Feira anterior à expansão urbana. Lagoa Grande faz referência à lagoa que durante décadas participou do abastecimento de água potável da cidade, até o início dos anos 1970. São João já foi conhecido como Campo Velho do Gado, denominação ligada às antigas instalações para comércio de animais.
São nomes que continuaram circulando mesmo quando desapareceram fazendas, aviários, campos de gado, armazéns e antigas construções. A expansão alterou os limites da cidade e criou novos bairros, mas parte das referências permaneceu incorporada aos endereços. Em Feira de Santana, perguntar por que um lugar se chama assim pode levar a uma história muito anterior à rua, à avenida ou ao bairro que existe hoje.
Foto – Antônio Carlos Magalhães

















